Ryua, uma jovem artista de Tóquio, vive em um elegante bairro da capital japonesa, mas paga um aluguel significativamente abaixo do valor de mercado. Seu apartamento de 25 m², que deveria custar cerca de 62.000 ienes mensais, sai por 45.000 ienes — uma economia de 30%. A razão para o desconto é peculiar: o imóvel é considerado um 'jiko bukken', uma propriedade com um passado trágico, onde um homem cometeu suicídio. Ryua, que afirma ter visto o 'fantasma' do antigo morador, decidiu "fazer amizade com o fantasma", transformando o estigma em uma vantagem financeira.

Essa dinâmica não é exclusiva de Ryua. Diane Tincher, uma americana de 79 anos residente em Kagoshima, no sul do Japão, também se beneficiou do receio cultural em torno de 'jiko bukken'. Ela adquiriu uma casa de três quartos por menos da metade de seu valor de mercado, cerca de 20 milhões de ienes. O agente imobiliário foi transparente: o imóvel estava desvalorizado porque uma senhora idosa havia morrido sozinha em sua residência, deixando-o estigmatizado. "Não acredito em fantasmas, mas sei que os japoneses são muito supersticiosos", comenta Tincher, grata pela oportunidade de morar em uma casa "esplêndida e acessível".

Um Mercado de Medo e Oportunidade

O termo 'jiko bukken' — propriedades estigmatizadas — abrange imóveis onde ocorreram crimes, suicídios ou mortes solitárias, um fenômeno crescente no Japão. A aversão cultural a esses locais cria um desafio para a indústria imobiliária, pois dificulta a venda ou o aluguel. Sites especializados e agentes confirmam que mesmo a proximidade de um cemitério ou a visão de túmulos da cozinha podem afetar a atratividade de um imóvel. O suicídio, em particular, é visto como um fator de grande estigma, levando muitos potenciais inquilinos a desistir da negociação.

A Transparência Forçada e o Mapa Sombrio

No Japão, a lei exige que os agentes imobiliários comuniquem o histórico trágico de um imóvel, especialmente se houve suicídio, homicídio ou mortes onde o corpo demorou a ser encontrado. Essa informação deve ser mantida por pelo menos três anos para aluguéis e de forma indefinida para vendas. No entanto, a informação sobre 'jiko bukken' pode ser encontrada facilmente online. Plataformas como Oshimaland compilam mapas de propriedades estigmatizadas, detalhando suas histórias sombrias e oferecendo um recurso para compradores e locatários que, como Ryua, não se importam em dividir o espaço com supostos espíritos em troca de um aluguel mais baixo.

Implicações Culturais e Econômicas

O fenômeno dos 'jiko bukken' revela uma fascinante interseção entre cultura, superstição e mercado imobiliário. Enquanto a maioria da população evita essas propriedades, um nicho de compradores e inquilinos emerge, impulsionado pela racionalidade econômica e, talvez, por uma curiosidade mórbida. A desvalorização desses imóveis, embora desafiadora para o setor, abre portas para uma parcela da população que, de outra forma, não teria acesso a certas localizações ou padrões de moradia. A prática também levanta questões sobre como a sociedade lida com o luto, a memória e o valor intrínseco de um lar.

O Que o Futuro Reserva?

A persistência do mercado de 'jiko bukken' no Japão sugere que a busca por moradias acessíveis pode, em alguns casos, superar o medo do sobrenatural. A transparência legal sobre o histórico das propriedades garante que os compradores estejam cientes, mas a decisão final de habitar um local associado a tragédias permanece uma escolha pessoal. Resta saber se essa tendência se manterá estável, se crescerá com o aumento das mortes solitárias ou se novas formas de lidar com o estigma imobiliário surgirão no futuro.

Para muitos, a casa é um santuário. Para outros, uma oportunidade de negócio onde o preço a pagar é apenas um pouco de coragem diante do desconhecido. A linha entre o medo e a barganha, no Japão, parece mais tênue do que se imagina.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka