O chef Joan Roca, à frente do prestigiado restaurante El Celler de Can Roca, apresentou nesta segunda-feira uma visão estratégica sobre o papel da culinária na economia espanhola. Durante a abertura do encontro ‘La gastronomía: un activo estratégico del país’, realizado na Universidade Internacional Menéndez Pelayo (UIMP), em Santander, o cozinheiro enfatizou que a gastronomia funciona como um motor de inovação, identidade e projeção internacional para a Espanha.

Segundo reportagem da Forbes España, o evento busca analisar o Plan Internacional de la Gastronomía Española. A iniciativa visa consolidar o país como uma potência alimentar global, utilizando a excelência culinária não apenas como um atrativo turístico, mas como um vetor de exportação de cultura, conhecimento e produtos de alta qualidade.

O legado como base para a vanguarda

Com uma trajetória de 40 anos, o El Celler de Can Roca é frequentemente citado como um exemplo de como a tradição pode sustentar a inovação. Segundo Roca, a longevidade do negócio está intrinsecamente ligada a valores familiares como generosidade, hospitalidade e a capacidade de compartilhar. Esses pilares, segundo o chef, não são apenas sentimentais, mas operacionais, permitindo que o restaurante mantenha sua relevância criativa ao longo de décadas.

A análise editorial sugere que o modelo proposto por Roca desafia a visão de que a gastronomia de elite é um setor isolado. Ao conectar a "memória" com a "vanguarda", o chef defende que a cozinha espanhola deve atuar como um ecossistema. Isso implica que a criatividade gastronômica não depende apenas do talento individual, mas de um forte alicerce no setor primário e na valorização das raízes locais, transformando cada prato em uma ferramenta de diplomacia cultural.

Mecanismos de projeção internacional

A estratégia delineada durante o encontro foca na conversão de clientes internacionais em embaixadores permanentes dos produtos espanhóis. Roca argumenta que o objetivo final é fazer com que o consumidor estrangeiro, ao retornar ao seu país de origem, busque e valorize a matéria-prima espanhola. Esse mecanismo cria uma demanda de mercado que beneficia toda a cadeia produtiva, desde o pequeno agricultor até os grandes exportadores.

Vale notar que a Espanha ocupa atualmente a sétima posição como exportador mundial de alimentos e a quarta na União Europeia. A articulação entre o setor público e a alta gastronomia busca alavancar esses números, posicionando a "Marca Espanha" como um selo de qualidade superior. A criatividade, portanto, torna-se uma exigência competitiva, onde o inconformismo constante é a única forma de garantir a renovação do interesse global pelo que é produzido na península.

Implicações para o setor e stakeholders

Para reguladores e gestores públicos, a gastronomia deixa de ser um tema de lazer para entrar na pauta de desenvolvimento econômico. A colaboração entre instituições acadêmicas, como a UIMP, e o setor privado reflete a necessidade de uma conversação pública mais robusta sobre o valor da marca país. Para os concorrentes e o mercado global, o movimento espanhol serve como um paralelo para nações que possuem forte identidade cultural, mas que ainda não conseguiram industrializar sua influência gastronômica de forma estratégica.

No contexto brasileiro, a discussão ressoa com os esforços de valorização de ingredientes nativos e da culinária regional como ativos de exportação. A lição de Roca é que o sucesso internacional não advém apenas da técnica, mas da capacidade de contar uma história coerente que conecte o consumidor global à origem do produto, garantindo autenticidade em cada etapa do processo.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a capacidade do setor de manter essa narrativa de "autenticidade" à medida que a demanda por escala aumenta. A pressão para exportar produtos em massa sem comprometer o valor percebido da marca é um desafio constante para qualquer economia baseada em produtos de origem.

Os próximos passos do setor observarão como o Plan Internacional de la Gastronomía Española se traduzirá em políticas públicas concretas e incentivos para produtores. A longevidade desse modelo dependerá da manutenção do equilíbrio entre a inovação técnica e a preservação da memória, um desafio que o Celler de Can Roca parece ter superado, mas que agora se coloca para todo um país.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España