Ken Griffin, fundador da Citadel e um notório doador republicano, expressou preocupações significativas sobre a gestão fiscal dos Estados Unidos, criticando a decisão do ex-presidente Donald Trump de estender cortes de impostos sem considerar o espaço orçamentário. Em sua visão, a renovação dos cortes fiscais, que mantiveram as alíquotas individuais mais baixas introduzidas em 2017, representa um erro estratégico em um momento de dívida nacional já elevada, que superou a marca de US$ 40 trilhões.

Griffin argumentou, durante o Future of Global Markets Conference em Nova York, que "não tínhamos o espaço fiscal para renovar os cortes de impostos". Ele apontou para os gastos governamentais substanciais durante a pandemia como um fator que já havia comprometido as finanças públicas. A legislação em questão, além de evitar um aumento de impostos para muitos contribuintes, incluiu benefícios como deduções para gorjetas e horas extras qualificadas, e certos juros de empréstimos automotivos. No entanto, a manutenção dessas benesses fiscais significa uma arrecadação menor para o governo, em um cenário onde as despesas já superam as receitas.

A conta dos cortes de impostos e o endividamento

A decisão de tornar permanentes os cortes de impostos de 2017, que expirariam ao final de 2025, adicionará cerca de US$ 4,1 trilhões aos déficits federais entre 2025 e 2034, segundo estimativas do Congressional Budget Office (CBO). Esse valor inclui os juros sobre o endividamento adicional necessário para cobrir a diferença entre receitas e despesas. O CBO ressalta que essa projeção não considera os efeitos potenciais da lei sobre a economia, que poderiam alterar ainda mais as receitas e despesas federais. A dívida total dos EUA, que combina obrigações com investidores e contas governamentais, já atinge aproximadamente US$ 40,4 trilhões. O custo dos juros dessa dívida também está em ascensão, tendo alcançado US$ 1,05 trilhão em pagamentos líquidos anuais no ano fiscal de 2026, um aumento de 8% em relação ao ano anterior.

Griffin tem alertado sobre as escolhas econômicas de Washington há algum tempo. Em outubro de 2025, ele descreveu a economia americana como estando em um "barato de açúcar", impulsionada por políticas governamentais mais adequadas a uma recessão. Em janeiro de 2026, ele já advertia que investidores de títulos poderiam punir governos que falhassem em organizar suas finanças. Se os investidores passarem a exigir taxas de juros mais altas para continuar emprestando a Washington, o governo terá que arcar com custos ainda maiores ao contrair novas dívidas ou rolar as existentes, exacerbando a crescente conta de juros.

Produtividade como motor de crescimento

Diante da relutância política em cortar gastos ou aumentar impostos, Griffin sugere que a chave para a recuperação fiscal e o crescimento econômico reside no aumento da produtividade. "Precisamos jogar a carta da produtividade com toda a força", afirmou. Para ele, isso envolve um forte investimento em áreas como inteligência artificial (IA), construção de data centers nos Estados Unidos, e avanços em energia nuclear, baterias e robótica. Griffin defende que a administração pública deve priorizar o desenvolvimento de tecnologias que possam aprimorar a produtividade nas próximas duas décadas, tornando-a o foco central da política econômica.

Ele também estende essa visão aos aliados dos EUA, argumentando que Washington deveria incentivar a Europa a realizar reformas econômicas em vez de se engajar em guerras tarifárias, que ele classificou como um "fiasco". Acredita que "o mundo ocidental inteiro está no mesmo barco". Para os Estados Unidos, a prioridade é clara e direta: "crescer a maldita economia".

Implicações e o futuro fiscal

A advertência de Griffin sobre a necessidade de crescimento econômico e a crítica aos cortes de impostos sem lastro fiscal destacam uma tensão fundamental na política econômica americana. A manutenção de políticas fiscais expansionistas em um contexto de alta dívida levanta questões sobre a sustentabilidade a longo prazo e a confiança dos investidores. A dependência de juros baixos para gerenciar a dívida torna o país vulnerável a choques de mercado, onde um aumento nas taxas de juros poderia rapidamente escalar o custo do serviço da dívida.

A abordagem de Griffin, focada em produtividade e inovação tecnológica, sugere um caminho alternativo para o crescimento que não depende exclusivamente de estímulos fiscais ou cortes de impostos. A ênfase em IA, energia limpa e automação pode, de fato, gerar ganhos de eficiência e competitividade a longo prazo. Contudo, a implementação dessas políticas requer visão estratégica e investimentos consistentes, além de um ambiente regulatório favorável.

Perguntas em aberto para a política econômica

Restam, no entanto, questões cruciais sobre como alcançar esse crescimento impulsionado pela produtividade de forma eficaz e equitativa. A transição para uma economia mais tecnológica pode gerar desigualdades se não for acompanhada por políticas de requalificação profissional e redes de segurança social robustas. Além disso, a capacidade do governo de financiar os investimentos necessários em infraestrutura e pesquisa e desenvolvimento, mesmo com um foco em produtividade, ainda depende de uma gestão fiscal prudente e da capacidade de gerar receitas suficientes.

A dinâmica entre a necessidade de investimentos em longo prazo e a pressão por resultados fiscais imediatos continuará a ser um ponto de atrito. A forma como os formuladores de políticas equilibrarão esses imperativos, e se conseguirão implementar as reformas estruturais necessárias para sustentar o crescimento da produtividade, definirá em grande parte a trajetória econômica futura dos Estados Unidos e sua posição no cenário global.

O debate em torno da dívida nacional e das estratégias para o crescimento econômico está longe de terminar. A visão de Griffin, embora crítica às políticas atuais, aponta para a importância de um planejamento econômico de longo prazo focado em inovação e eficiência, em vez de soluções fiscais de curto prazo. O desafio agora é transformar essas advertências e sugestões em ações concretas que possam garantir a prosperidade futura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune