A trajetória de Khaled Sabsabi até o pavilhão da Austrália na Bienal de Veneza de 2026 foi marcada por uma disputa política que quase silenciou sua participação. Selecionado inicialmente pela Creative Australia, o artista libanês radicado em Sydney enfrentou uma intervenção governamental que tentou vetar sua presença. O motivo alegado foi a utilização de uma imagem desfocada de um ex-líder do Hezbollah em um vídeo de 2007, o que gerou acusações infundadas de apoio ao terrorismo.

Segundo reportagem da Hyperallergic, a resistência da comunidade artística e uma revisão independente reverteram a decisão, permitindo que Sabsabi apresentasse suas instalações. O episódio revela a tensão constante entre a liberdade de expressão artística e a diplomacia cultural em um cenário global polarizado, onde a obra de um artista pode se tornar um campo de batalha para agendas políticas nacionais.

A busca pelo Simorgh e a coletividade

As obras de Sabsabi, intituladas “khalil” e “conference of one’s self”, são profundamente influenciadas pelos ensinamentos do Tasawwuf, ou misticismo sufi. O artista utiliza a metáfora do poema “A Conferência dos Pássaros”, do poeta Farid ud-Din Attar, para explorar a ideia de que a liderança é um esforço coletivo. No poema, trinta pássaros percebem, ao final de uma jornada exaustiva, que eles próprios são o Simorgh, uma entidade mítica que buscavam fora de si.

Essa filosofia serve como base para a interrogação de Sabsabi sobre o que significa ser um sujeito no mundo contemporâneo. Ao transformar o pavilhão australiano em um espaço octogonal, o artista convida o público a uma experiência de aprendizagem e desaprendizagem, onde a geometria e o movimento físico refletem a complexidade do ser como uma construção plural, desafiando a noção tradicional de individualidade isolada.

Tecnologia e a ilusão do olhar

A técnica de Sabsabi funde o analógico e o digital, criando instalações imersivas que confundem a percepção do espectador. Em “khalil”, uma tela em espiral de 12 metros projeta imagens de arquivo sobre uma pintura física, criando uma ilusão óptica onde o observador questiona se está diante de uma tela ou de uma projeção. O artista, que possui um passado como músico de hip-hop sob o nome “Peacefender”, traz para as artes visuais o mesmo senso de justiça social que aplicava em seus projetos comunitários.

Essa abordagem técnica não é gratuita; ela serve para criar momentos de acesso para o público, evitando que a tecnologia se torne um fim em si mesma. Ao inserir imagens processuais e cotidianas em camadas vetorizadas, Sabsabi conecta a experiência estética a realidades geográficas e culturais distantes, como procissões no Líbano e partidas de futebol na Austrália, reforçando a ideia de uma humanidade compartilhada.

Implicações da resistência cultural

O caso de Sabsabi levanta questões sobre o papel das instituições de fomento na proteção de seus artistas contra pressões políticas. Para governos, a arte muitas vezes é vista como um ativo de soft power, mas quando essa expressão desafia narrativas oficiais, o suporte institucional tende a ser volátil. A resiliência demonstrada pelo artista e pelo curador Michael Dagostino destaca a importância de redes de apoio independentes dentro do ecossistema das artes.

Para o público e outros artistas, o desfecho positivo reforça que a arte, quando ancorada em uma visão clara, pode sobreviver a tentativas de apagamento. A experiência de Sabsabi, um sobrevivente da guerra civil libanesa com vivência em centros de detenção, traz uma carga de autenticidade que torna a censura ainda mais ineficaz diante da profundidade do trabalho apresentado.

O futuro da identidade no terceiro espaço

O que permanece em aberto é como as instituições lidarão com a crescente pressão por neutralidade política em um mundo onde a neutralidade é cada vez mais escassa. Sabsabi sugere que a solução não reside na dualidade, mas em um “terceiro espaço” — uma dimensão indefinida onde as identidades podem coexistir sem a necessidade de rótulos rígidos ou divisões binárias.

O horizonte para a Bienal e para o debate cultural global aponta para uma necessidade urgente de diálogos mais abertos, mesmo em meio a conflitos. A obra de Sabsabi convida o espectador a refletir sobre a própria posição nesse coletivo, sugerindo que a reconciliação com o passado e a abertura para o outro são os únicos caminhos possíveis para uma humanidade em crise.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic