A artista Kim Dacres, residente no Harlem, consolidou uma prática singular que transforma o que a maioria considera lixo urbano em reflexões profundas sobre a condição humana. Semanalmente, Dacres percorre o bairro em busca de pneus e peças de bicicleta — materiais que ela descreve como dotados de uma resiliência única. Segundo reportagem da Hyperallergic, esse ritual de coleta, batizado pela artista de “Tire Tuesday”, é o alicerce de uma obra que homenageia a vizinhança e as histórias de indivíduos marginalizados.
Atualmente em exibição na galeria Charles Moffett, a mostra Lost on a Two Way Street apresenta 18 esculturas, de acordo com a Hyperallergic, que expandem a investigação de Dacres sobre temas como direitos humanos, violência e a busca por liberdade. A artista utiliza a borracha não apenas como meio, mas como metáfora para a capacidade de absorver impactos e traumas sem sofrer danos visíveis, traçando um paralelo direto com a vivência de grupos sub-representados nos Estados Unidos.
A estética da resiliência material
A escolha da borracha por Dacres é deliberada e multifacetada. O material é onipresente na vida cotidiana, do transporte ao calçado, representando, para a artista, uma conexão visceral com o movimento e a mobilidade. Dacres, nascida e criada no Bronx, associa o odor característico da borracha a uma sensação de liberdade e acesso — elementos que ela busca capturar em suas formas esculturais.
Além da durabilidade física, a artista explora como os objetos circulam entre as pessoas e revelam mundos emocionais muitas vezes ignorados. Ao esculpir bustos e medalhões, ela procura honrar a “textura” de cada indivíduo — músicos, atletas ou transeuntes anônimos que cruzam seu caminho. A obra atua como um contraponto à tendência social de reduzir pessoas às suas ocupações ou status econômico, ignorando a complexidade de suas trajetórias.
Música e memória como pilares
O processo criativo de Dacres é profundamente influenciado pela cultura musical negra, o que também orienta a nomeação de suas séries. Em seu conjunto mais recente, Forget Me Nots — homenagem direta à canção de Patrice Rushen —, a artista sublinha o papel dos laços sociais na manutenção da saúde mental. Cada peça funciona como registro visual de memórias afetivas que Dacres coleta durante suas caminhadas pelo bairro.
Além das referências musicais, Dacres incorpora letras de Stevie Wonder para dar significado a obras que discutem o amor e a conexão humana. A transição para uma paleta de cores que foge do preto absoluto, observada em peças como Until the ocean covers every mountain high, sinaliza um amadurecimento na forma como a artista traduz sentimentos de esperança e resistência em meio a um cenário global carregado de incertezas.
Tensões globais e o ambiente
Nos trabalhos mais recentes, o foco de Dacres se expande de homenagens individuais para questões macroestruturais, como desastres ambientais e ataques aos direitos LGBTQ+. A obra Blue Gears, por exemplo, foi concebida em diálogo com eventos climáticos extremos no Caribe, conectando-se diretamente aos impactos das mudanças climáticas e à elevação do nível do mar. O uso de cor vibrante nessa peça aponta para uma mudança consciente em direção a temas de urgência climática.
Essas esculturas não são apenas representações estáticas; elas operam como um vocabulário visual que questiona barreiras de acesso à educação, cidadania e direitos civis. Para a artista, a forma como o ambiente molda o indivíduo é central, sugerindo que a identidade é um processo contínuo de adaptação às pressões externas impostas pela sociedade.
O futuro da prática artística
Permanece em aberto como essa linguagem material evoluirá à medida que os temas abordados se tornam mais complexos e globais. Dacres demonstra habilidade rara de manter a intimidade de suas homenagens locais enquanto articula críticas contundentes a sistemas de opressão mais amplos. Sua trajetória sugere que o uso de materiais encontrados continuará a ser um termômetro das tensões sociais que pesam sobre o espírito contemporâneo.
A capacidade de transformar descarte em monumento levanta questões sobre o papel do artista como mediador da memória coletiva. Enquanto Dacres continua a coletar borracha nas ruas de Nova York, seu trabalho convida o público a reconsiderar o que é descartável e o que, na verdade, sustenta a estrutura de nossas comunidades.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





