A artista equatoriana Koyoltzintli, radicada em Nova York, tem transformado o cenário artístico contemporâneo ao fundir a prática da cerâmica com a exploração sonora de instrumentos ancestrais. Em sua exposição "How to Play a Broken Bone", atualmente em exibição na Al Held Foundation, ela apresenta uma série de peças inspiradas em artefatos arqueológicos que, segundo a artista, permaneceram silenciosos por séculos em coleções privadas. A mostra, que se estende até junho, marca uma transição profunda na trajetória da criadora, que iniciou sua carreira no fotojornalismo documentando a expansão urbana na Amazônia e o trabalho de curandeiros nos Andes.
O despertar sonoro da cerâmica
A conexão de Koyoltzintli com a argila ganhou um novo significado em 2020, quando, impossibilitada de retornar ao Equador devido à pandemia, passou a frequentar museus em busca de uma conexão com suas raízes. Foi nesse período que ela identificou em cerâmicas pré-colombianas capacidades acústicas que haviam sido negligenciadas por colecionadores focados apenas na estética visual. A artista descreve o processo como um despertar, onde instrumentos como flautas e apitos de água deixaram de ser objetos de vitrine para se tornarem extensões de um diálogo contínuo entre o passado e o futuro.
Mecanismos de som e elementos naturais
O trabalho da artista vai além da simples reprodução histórica. Em obras como "9 Tz’lkin", uma instalação que utiliza água e fogo, Koyoltzintli manipula a pressão atmosférica dentro de colunas de cerâmica para produzir sons que remetem ao vento oceânico. A escolha dos materiais não é aleatória; ela busca integrar os quatro elementos — terra, água, fogo e ar — em uma experiência performática. Ao incorporar desenhos em grande escala e fotografias, suas instalações funcionam como partituras gráficas que guiam o espectador através de uma experiência sensorial completa.
Tensões entre preservação e inovação
A prática de Koyoltzintli levanta questões importantes sobre a curadoria e a preservação de objetos culturais. Ao adquirir instrumentos de colecionadores que nunca os ouviram tocar, a artista desafia a visão puramente ornamental das artes ancestrais. O trabalho ecoa uma necessidade crescente de reativar memórias coletivas, algo que ressoa fortemente no ecossistema artístico latino-americano, onde a fronteira entre arte contemporânea e tradição milenar é frequentemente debatida por instituições e pesquisadores.
Perspectivas sobre o legado material
O futuro da obra de Koyoltzintli aponta para uma integração ainda maior entre performance e instalação escultórica. A questão que permanece é como esse modelo de "museologia ativa" poderá influenciar futuras exposições de arte pré-colombiana, incentivando instituições a permitirem a interação sonora com peças históricas. A artista segue explorando como o uso da argila pode servir como um veículo para a transmissão de conhecimentos que, de outra forma, estariam fadados ao silêncio.
O trabalho de Koyoltzintli convida a uma reflexão sobre como o passado pode ser ativado no presente, transformando o silêncio dos museus em uma conversa viva sobre identidade e memória. A ressonância de suas peças sugere que a arte, quando liberta da imobilidade das vitrines, possui a capacidade de evocar vozes que atravessam séculos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





