A ilha de Lanzarote, parte do arquipélago das Canárias, levou seu singular modelo de desenvolvimento à sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma. Em um evento para delegados da organização, agentes de turismo e imprensa, o governo local, em parceria com órgãos de turismo e agricultura da Espanha, apresentou seu patrimônio agrícola e gastronômico como um case internacional de turismo sustentável.
O pano de fundo da apresentação é o reconhecimento formal da própria FAO, que classificou os sistemas agrícolas de Lanzarote — baseados em areias vulcânicas e na extrema escassez de água — como um Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM). A leitura aqui não é apenas sobre agricultura, mas sobre a transformação de uma aparente desvantagem competitiva — um ambiente hostil — em um ativo de marketing de altíssimo valor agregado.
O marketing da escassez
O selo SIPAM funciona como uma chancela de autenticidade. Ele valida um modelo produtivo que, por necessidade, desenvolveu ao longo de séculos um profundo conhecimento tradicional para se adaptar a um ecossistema adverso. Para o turismo, isso é ouro. Em vez de competir por volume com outros destinos de sol e praia, Lanzarote aposta na diferenciação, vendendo uma narrativa de resiliência, engenhosidade e conexão com o terroir.
A estratégia é um exemplo clássico de branding territorial. Ela eleva a gastronomia local de mero complemento da viagem a seu principal atrativo, ancorada em produtos únicos que só poderiam existir naquelas condições. O movimento mira um público que busca experiências exclusivas e está disposto a pagar mais por uma história bem contada, alinhada a valores de sustentabilidade e respeito às comunidades locais.
A diplomacia do terroir
A escolha do palco — um comitê técnico da FAO — é igualmente estratégica. Apresentar o modelo de Lanzarote em um fórum global de agricultura, e não em uma feira de turismo convencional, confere uma camada de credibilidade científica e institucional à sua proposta de valor. É uma jogada de soft power, que utiliza a gastronomia e a sustentabilidade como ferramentas de diplomacia econômica.
Segundo a reportagem da Forbes España, a iniciativa faz parte de uma estratégia conjunta do governo espanhol para posicionar o país como um destino gastronômico de referência. O caso de Lanzarote mostra que essa projeção não depende apenas de chefs estrelados, mas de um ecossistema integrado que une produtores, governo e o setor de turismo em torno de uma identidade coesa.
O modelo da ilha vulcânica oferece um roteiro para outras regiões que enfrentam desafios ambientais. A lição é que o futuro do turismo de alto valor pode não estar em esconder as imperfeições de um lugar, mas em saber transformá-las em sua principal assinatura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





