A narrativa de que a inteligência artificial é a causa primária das recentes ondas de demissões no setor de tecnologia foi contestada por Michael Weening, CEO da Calix. Em artigo recente, o executivo argumentou que figuras proeminentes do Vale do Silício, como Jack Dorsey e Marc Benioff, têm utilizado a IA como uma justificativa conveniente para corrigir erros de contratação e falhas operacionais cometidas durante o período pós-pandemia.

Segundo o executivo, essa estratégia de comunicação não apenas cria expectativas irreais para conselhos de administração e investidores, mas também instala uma cultura de medo dentro das empresas. Weening aponta que, quando líderes utilizam a tecnologia para monitorar intensamente a atividade dos colaboradores sob o pretexto de implementação de IA, eles desviam o foco das decisões gerenciais difíceis e minam a confiança das equipes.

O risco da IA como bode expiatório

A análise de Weening sugere que o uso da IA para mascarar problemas estruturais é um erro estratégico fundamental. Ao invés de tratar a tecnologia como um catalisador de produtividade, a liderança acaba por tratar o medo como ferramenta de gestão, o que o autor considera uma base precária para qualquer transformação organizacional duradoura.

O executivo enfatiza que a tecnologia, por mais extraordinária que seja, não substitui os princípios básicos de liderança. Em sua visão, a história de transformações anteriores — como a implementação de sistemas de CRM ou a automação industrial de Henry Ford — demonstra que o papel do líder é gerenciar a transição e a adaptação dos talentos, e não culpar a ferramenta pelas mudanças no fluxo de trabalho.

Princípios de uma estratégia centrada no humano

Para a Calix, a implementação de IA segue quatro pilares que visam desmistificar a tecnologia e engajar os colaboradores. Primeiro, o posicionamento da IA como um recurso de empoderamento, focado em permitir que a empresa expanda receitas sem aumentar proporcionalmente os custos operacionais. Esse discurso busca alinhar a equipe em torno de objetivos comuns de eficiência e competitividade.

O segundo pilar envolve o treinamento sistemático, combatendo a desinformação por meio de webinars, acesso a ferramentas seguras e suporte entre pares. Weening destaca que a inovação prospera quando há um ambiente seguro para aprender com falhas, tornando o reconhecimento da experimentação um elemento central da cultura corporativa.

Métricas e a clareza da execução

A estratégia de liderança exige, além de cultura, disciplina na medição de resultados. A Calix adotou dois indicadores principais para monitorar a eficácia da implementação de IA: receita por dólar operacional investido e lucro bruto por dólar operacional investido. Essas métricas permitem que a organização avalie a produtividade da equipe e estabeleça benchmarks externos objetivos.

Essa abordagem de transparência é reforçada pelo processo de planejamento estratégico da companhia. Ao colocar a transformação guiada por IA como prioridade máxima para 2026, a liderança articula claramente a visão, as táticas e os obstáculos que as equipes enfrentarão, evitando a incerteza que frequentemente paralisa grandes organizações em momentos de transição tecnológica.

O desafio da liderança em tempos de incerteza

O futuro da gestão em um cenário de rápida adoção de IA permanece incerto, especialmente no que diz respeito à velocidade das mudanças. Weening observa que o ciclo de planejamento das empresas foi comprimido, exigindo que CEOs tomem decisões de longo prazo sem o luxo da certeza absoluta, baseando-se em fundamentos sólidos de gestão.

A questão que permanece aberta para o ecossistema de tecnologia é se as empresas conseguirão migrar de uma gestão baseada na vigilância e no medo para uma cultura de capacitação. O sucesso, segundo essa visão, não será definido pela ferramenta, mas pela capacidade da liderança em manter a disciplina e a clareza durante o processo de transformação.

A transformação digital continua sendo uma jornada de pessoas, onde a tecnologia atua como o motor, mas o comando e a direção permanecem sob a responsabilidade inalienável da gestão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company