Lucia Laguna, pintora brasileira cujas obras capturavam a essência das colinas do Rio de Janeiro, faleceu na cidade aos 85 anos. A notícia foi confirmada por sua galeria, Fortes D’Aloia & Gabriel, que suspendeu suas atividades para homenagear a artista e Rodrigo Cass, outro nome do seu portfólio recentemente falecido. A galeria paulistana destacou que, ao longo de sua trajetória, Laguna desenvolveu um trabalho marcado pelo engajamento com a paisagem, a memória e o cotidiano.

Com uma formação anterior como professora de língua e literatura, Laguna encontrou na arte uma nova forma de expressão. Sua obra, caracterizada por um léxico fragmentado e sobreposto de pinturas densas, coloridas e semi-abstratas, dialogava diretamente com sua experiência com a linguagem. A artista era conhecida por seu processo criativo colaborativo, um verdadeiro diálogo pictórico com seus assistentes e alunos. Eles iniciavam uma primeira camada de pintura sobre um tema, e Laguna respondia acumulando, pintando por cima ou apagando camadas de pigmento, num processo contínuo de reinterpretação.

“Sua obra, ao mesmo tempo íntima e aberta ao mundo, ocupa um lugar fundamental na arte brasileira contemporânea”, ressaltou a galeria. Muitas de suas criações estão agrupadas em séries notáveis como “Jardim”, “Paisagem”, “Estúdio” e “Azulejo”. Nestas, a artista combinava imagens figurativas, tanto de interiores quanto de exteriores, inspiradas na folhagem tropical e nas paisagens urbanas vibrantes que a cercavam. As composições, por vezes, pareciam rasgadas e fragmentadas, com formas geométricas que quase colidiam e fluíam para contrapartes orgânicas em suas abstrações.

Uma de suas galerias europeias, Karsten Greve, observou que as pinturas de Laguna frequentemente transmitem uma sensação de expressividade e energia, outras vezes de leveza e fluidez, mas quase sempre permeadas por uma luz atmosférica. Em 2008, a própria artista declarou, segundo o livro “Economia da Pintura” de Paulo Herkenhoff, que acreditava na capacidade da pintura de resgatar um tempo de contemplação perdido no bombardeio de imagens das cidades. A lentidão e a introspecção que a pintura exigia a atraíam, convidando-a a traduzir a realidade sob essa perspectiva, que ela via como perdida.

Nascida em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, em 1941, Lucia Laguna teve um início de carreira artístico tardio. Trabalhou por muitos anos como professora de língua e literatura até que, por volta dos 54 anos, decidiu ingressar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1995. Ali, estudou sob a orientação de Charles Watson. Em 1998, realizou sua primeira exposição individual no Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio. Um marco importante em sua carreira foi a participação na 30ª Bienal de São Paulo, em 2012. Atualmente, suas obras integram acervos de importantes museus brasileiros e foram exibidas internacionalmente em locais como o Martin Gropius Bau, em Berlim, e o Museum of Contemporary Art, em Antuérpia. Laguna foi agraciada com diversos prêmios, incluindo o PIPA, um dos mais prestigiados do Brasil. Ela deixa sua filha, Laura, e os netos João e Daniel.

Com reportagem de Brazil Valley

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