Em Palma, o sol que ilumina as ruelas góticas e atrai milhões de turistas também bate em janelas fechadas. São persianas baixadas, varandas sem vida, apartamentos que se tornaram meros ativos financeiros ou refúgios sazonais. Por trás de cada uma dessas fachadas silenciosas, pulsa uma das questões mais agudas das cidades contemporâneas: a quem serve um imóvel vazio em meio a uma crise de moradia?
Esta semana, o parlamento das Ilhas Baleares deu sua resposta. Uma proposta para criar um corpo de agentes locais com a missão de identificar essas residências desocupadas e entender seu estado foi rejeitada. A ideia, defendida pelo partido MÉS per Mallorca, era pragmática: mapear o estoque vago para, potencialmente, integrá-lo a um programa de aluguel seguro. A iniciativa foi derrubada por uma coalizão de centro-direita e direita, formada por PP, Vox e Grupo Mixto, contra os votos da esquerda.
O Estado como detetive
A proposta não se limitava a enviar fiscais às ruas. Ela sugeria a criação de um observatório da habitação, uma ferramenta de dados que cruzaria informações de consumo de água, registros de propriedade e dados municipais para construir um mapa preciso do vazio urbano. Era uma tentativa de aplicar a lógica do século 21 — o uso inteligente de dados — a um problema secular. A rejeição, portanto, não foi apenas sobre a criação de um novo cargo público; foi um veto à própria ideia de que o Estado deveria ter um papel ativo, quase investigativo, na gestão do parque imobiliário privado para fins sociais.
O pano de fundo é o embate ideológico clássico. De um lado, a defesa da função social da propriedade, argumento que ganha força em locais onde a especulação e o turismo pressionam os preços a níveis insustentáveis para a população local. Do outro, a defesa intransigente do direito à propriedade, que vê em qualquer tentativa de mapeamento ou regulação um primeiro passo para a expropriação ou controle excessivo. O placar da votação espelhou perfeitamente essa divisão, mostrando que, em Mallorca, a santidade da propriedade privada ainda prevalece sobre a urgência da crise habitacional.
A recusa em criar até mesmo um observatório de dados deixa uma pergunta no ar. Sem a informação, sem o mapa do problema, como qualquer governo poderá desenhar uma solução? As janelas continuam fechadas, e o Estado, por decisão própria, escolhe não olhar o que há por dentro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





