Martin McDonagh, um nome sinônimo de diálogos afiados e personagens moralmente ambíguos, reafirma sua assinatura em "Wild Horse Nine", seu mais recente trabalho cinematográfico. A transição do aclamado dramaturgo para o cinema, iniciada com "In Bruges" em 2008, sempre demonstrou sua habilidade em transitar entre os palcos e as telas. Seus trabalhos, sejam eles teatrais ou cinematográficos, frequentemente mergulham nas complexidades das relações masculinas disfuncionais, muitas vezes ambientadas no contexto da cultura americana, onde a violência e a complexidade moral parecem mais acentuadas. Filmes como "Sete Psicopatas" e "Três Anúncios Para um Crime" já exploravam essa veia, mas foi com "As Banshees de Inisherin", um sucesso de 2022, que McDonagh consolidou sua reputação em dissecar amizades e suas rupturas abruptas.

A Ilha de Páscoa como Palco para o Absurdo

"Wild Horse Nine" leva essa exploração a um novo patamar, ambientando a trama na Ilha de Páscoa em 1973, com John Malkovich e Sam Rockwell no papel de agentes cínicos da CIA, às vésperas do golpe militar no Chile. A escolha do cenário não foi aleatória. McDonagh revela que as icônicas estátuas Moai, a paisagem vulcânica e, surpreendentemente, a presença de cavalos selvagens foram os elementos que o atraíram. "Os cavalos eram sempre lá", afirma o diretor, que confessa uma afinidade pessoal com o mundo animal, buscando incorporar elementos da natureza em suas narrativas, assim como fez com o burro em "As Banshees de Inisherin". A relação entre um homem fragilizado e a vida animal, com a nobreza e a beleza dos cavalos, oferece um contraponto sutil, mas não sentimental, à crueza da trama.

A Arte de Evitar o Sentimentalismo

A abordagem de McDonagh em retratar relacionamentos, especialmente entre dois amigos próximos, é notável pela profundidade emocional sem cair na pieguice. "A evitação do sentimentalismo é sempre primordial para mim em todos os filmes", declara. Essa filosofia se reflete na escolha de atores como John Malkovich e Sam Rockwell, que, segundo o diretor, naturalmente evitam o melodrama. "Nunca vai ser um filme 'feelgood'", ele explica, antecipando que "Wild Horse Nine", apesar de sua premissa inusitada – uma comédia sobre a ditadura chilena –, não busca agradar ao público com leveza superficial. O humor ácido e a gallows humor, características de seu trabalho, são o alicerce sobre o qual a narrativa se constrói, garantindo que a emoção, quando presente, seja crua e complexa, sem concessões fáceis.

Dinâmicas de Atuação e Relações Colaborativas

O processo de escalação para "Wild Horse Nine" foi marcado pela colaboração. Sam Rockwell, parceiro de longa data de McDonagh, teve seu papel escrito especificamente para ele, mas a chegada de John Malkovich ao projeto, mais perto do início das filmagens, adicionou uma camada de expectativa e, para o diretor, um certo receio inicial. McDonagh descreve Malkovich como um "ator de verdade", desprovido de "baboseiras" e focado na entrega de papéis complexos. A dinâmica entre Rockwell e McDonagh, apesar de consolidada por trabalhos anteriores, exigiu um ajuste. Após uma semana inicial de descompasso, eles reavaliaram sua colaboração, permitindo mais liberdade criativa para Rockwell, o que, ironicamente, resultou em tomadas que atendiam à visão original do diretor. Essa abertura para o fluxo e o refluxo da criação conjunta é vista como um reflexo das próprias amizades que ele explora em suas obras.

Reflexões sobre a Cultura Americana e o Poder

McDonagh frequentemente ambienta suas histórias nos Estados Unidos ou explora a "Americana", uma influência cultural que ele reconhece desde a juventude. O cinema americano dos anos 70, com sua liberdade para abordar temas sombrios e políticos, é uma referência constante. "Wild Horse Nine" não é anti-americano, mas sim crítico a instituições como a CIA e a governos que exercem poder de forma questionável. A fala de um personagem sobre o assassinato de Patrice Lumumba, por exemplo, expõe a brutalidade das ações da CIA em escala global e o peso da culpa em quem as perpetra. A inclusão desse momento, que traz um "profundo momento de clareza" e revela o lado sombrio e destrutivo das ações do personagem, é um exemplo da habilidade de McDonagh em confrontar o público com a complexidade moral, mesmo em meio ao humor e à ironia.

O fechamento do elenco com Tom Waits, interpretando o irmão de um dos protagonistas, é descrito como uma escolha inspirada, que rouba a cena com sua presença icônica e atuação singular. A experiência de trabalhar com Waits, um artista que McDonagh admira desde a adolescência, foi, segundo ele, "além dos seus sonhos mais selvagens". A cena final, gravada em Monument Valley, culminou em um dia produtivo, finalizado ao meio-dia, um ritmo que Waits, descrito como um ser "gentil, bonito e aberto", parece apreciar. A arte de McDonagh reside precisamente em sua capacidade de explorar as profundezas da condição humana, despojando-a de sentimentalismos vazios e revelando a verdade, por vezes desconfortável, das relações e das ações que moldam o mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies