A America’s Cup, o troféu mais antigo da história do esporte, iniciou um movimento de modernização sem precedentes ao desembarcar no porto de Nova York durante as celebrações de 4 de julho. O evento, que homenageou o aniversário de 250 anos da independência americana, serviu como palco para a apresentação da nova fase da competição sob a liderança de Marzio Perrelli. Como o primeiro CEO na história da America’s Cup Partnership, Perrelli carrega a missão de transitar o torneio de uma monarquia esportiva para uma estrutura de liga profissional e escalável.
Segundo reportagem da Fortune, o executivo, que construiu uma carreira de três décadas no setor financeiro e de mídia, incluindo passagens pelo Goldman Sachs e HSBC, foi escolhido por um consórcio de cinco equipes fundadoras. A mudança de governança, consolidada em dezembro de 2025, encerra a era em que o defensor do título detinha controle unilateral sobre regras e sedes, substituindo esse modelo por uma gestão coletiva focada no crescimento da plataforma como um todo.
A transição para uma estrutura corporativa
A escolha de um veterano do mercado financeiro para gerir um ativo de 175 anos de história não é acidental. Para Perrelli, a America’s Cup enfrenta os mesmos desafios de qualquer startup em estágio de crescimento: a necessidade de profissionalizar a governança e alinhar incentivos entre stakeholders que, historicamente, operavam sob uma lógica de rivalidade isolada. A transição para a America’s Cup Partnership força as equipes a abandonarem o comportamento egoísta em favor da viabilidade econômica da marca.
O executivo argumenta que o esporte contemporâneo é indissociável das finanças e da mídia. Ao aplicar a metodologia de gestão de grandes bancos e fundos de private equity, Perrelli busca remover a volatilidade que historicamente assolou a competição. A ideia é tratar a regata não como um evento esporádico de elite, mas como um produto de entretenimento constante, com calendário previsível e governança estável, garantindo que o valor gerado pela plataforma beneficie todos os participantes.
O mecanismo de valorização em Nápoles
O teste de fogo dessa nova gestão será a edição de 2027 em Nápoles, a primeira na Itália. O projeto é ambicioso e está atrelado à revitalização industrial da zona portuária de Bagnoli. Estimativas do Unimpresa Research Center indicam um retorno econômico imediato de cerca de 700 milhões de euros, com um impacto de longo prazo que pode alcançar 2 bilhões de euros na próxima década. A aposta é que o evento transforme a infraestrutura da cidade, deixando um legado urbano duradouro.
Para Perrelli, o modelo de sucesso é o Grande Prêmio de Mônaco, onde o evento esportivo é o catalisador de um ecossistema de negócios, festas e socialização que se estende por meses. Ao integrar elementos como a obrigatoriedade de mulheres na tripulação e a criação de assentos para convidados, a organização tenta ampliar o apelo comercial da regata, tornando-a uma vitrine atraente para patrocinadores globais e investidores, distanciando-se da imagem de um esporte exclusivo para iniciados.
Tensões e o futuro da competição
A sobrevivência da America’s Cup como produto global depende da participação de mercados-chave. A recente ameaça de uma edição sem uma equipe americana evidenciou a fragilidade do modelo. A entrada da American Racing Challenger, financiada pelo bilionário Karel Komárek e pelo empresário Chris Welch, foi descrita por Perrelli como um movimento crucial para a relevância do torneio. A necessidade de garantir a presença de grandes nações é, por si só, uma estratégia de mitigação de risco comercial.
A longo prazo, a incerteza reside na capacidade de Perrelli em manter a coesão entre os fundadores. A história da competição é marcada por disputas jurídicas e egos que frequentemente paralisaram a inovação. A transição para um modelo de liga exige uma disciplina que o esporte nunca teve. Observar como a organização lidará com a pressão por resultados financeiros em Nápoles será o termômetro para saber se a "startup de 175 anos" conseguirá, de fato, se tornar uma liga esportiva perene.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





