O governo do México está apostando em um incentivo fiscal para combater um de seus maiores gargalos de competitividade: a escassez de profissionais técnicos. Uma proposta de reforma tributária, parte do chamado Plano México, permitiria que empresas deduzissem 25% a mais sobre o aumento de seus gastos com capacitação e inovação entre 2027 e 2030. A medida busca engajar o setor privado na formação de mão de obra, um desafio que trava a expansão industrial e a absorção de novas tecnologias no país.

A iniciativa, detalhada em reportagem do portal mexicano Expansión, é um reconhecimento oficial de que o mercado não consegue, sozinho, suprir a demanda por talentos. A leitura, contudo, é que a solução via benefício fiscal, embora bem-intencionada, possui um alcance restrito. Especialistas ouvidos pela publicação apontam que o estímulo pode funcionar como um catalisador, mas está longe de ser a solução completa para um problema estrutural.

O alcance real do benefício

O diabo, como de costume, mora nos detalhes. O benefício fiscal não incide sobre o orçamento total de treinamento, mas apenas sobre o valor que exceder a média dos três anos anteriores. Além disso, a dedução de 25% não se traduz em um desconto de 25% no imposto a pagar. Na prática, o benefício reduz a base de cálculo do imposto de renda, que no México é de 30%. O resultado, segundo cálculos de especialistas, é uma economia efetiva de cerca de 7,5 centavos para cada peso adicional investido.

Essa mecânica favorece principalmente grandes empresas, já lucrativas e com orçamentos de capacitação consolidados e crescentes. Negócios em fase inicial, startups com prejuízo fiscal ou pequenas companhias, que talvez mais precisassem do apoio para qualificar suas equipes, têm pouca ou nenhuma capacidade de aproveitar a dedução. O incentivo, portanto, corre o risco de subsidiar atividades que empresas maiores já realizariam de qualquer forma, como aponta a própria OCDE em estudos sobre políticas similares.

Um remédio incompleto para a escassez de talentos

Dados da consultoria ManpowerGroup mostram que o investimento corporativo em treinamento já é uma tendência. A capacitação interna saltou de uma menção em 10% das estratégias empresariais para figurar em mais de 50% delas, com orçamentos até cinco vezes maiores que há uma década. O estímulo fiscal pode acelerar essa tendência, mas dificilmente criará, por si só, programas de formação em larga escala, como a construção de centros técnicos dedicados.

Outra limitação crítica é o público-alvo. A regra exige que os trabalhadores capacitados já estejam formalmente contratados e registrados na seguridade social. Isso exclui estudantes em modelos de educação dual, aprendizes e recém-graduados que ainda buscam a primeira inserção no mercado de trabalho — justamente o elo mais fraco na cadeia de formação de talentos. A experiência internacional, de resto, recomenda cautela: países como Áustria e Holanda substituíram incentivos fiscais genéricos por apoios mais focados e diretos.

A iniciativa mexicana é um passo pragmático ao dividir com as empresas a conta da qualificação profissional. Contudo, a aposta de que um ajuste tributário pode resolver um déficit que envolve educação básica, formação técnica e dinâmica do mercado de trabalho parece otimista. O desafio, no México como em outras economias que enfrentam o mesmo apagão de talentos, é garantir que o investimento gere novas competências, e não apenas um abatimento no imposto de quem já podia pagar pela capacitação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX