O governo do México sinalizou uma mudança de rota em sua política para o setor de telecomunicações, tradicionalmente focada em arrecadação. A Secretaria da Fazenda propôs uma redução de 12% no custo de diversas faixas de espectro radioelétrico essenciais para o 5G, uma medida que visa destravar investimentos na nova geração de redes móveis.

Contudo, a iniciativa, embora bem-recebida como um gesto político, é vista como insuficiente para resolver o problema de fundo. Segundo especialistas ouvidos pela publicação mexicana Expansión, mesmo com o corte, o espectro no país ainda carrega um sobrepreço de cerca de 50%. A leitura é que o ajuste funciona como um paliativo, mas não resolve a equação que hoje trava o avanço da tecnologia e coloca o México em desvantagem competitiva na América Latina.

Um histórico de leilões fracassados

O alto custo do espectro no México não é um problema novo, e seus efeitos são visíveis. O apetite das operadoras por novas frequências tem sido praticamente nulo. A última grande licitação de espectro, a IFT-11, terminou deserta, sem um único bloco arrematado. Em 2021, a antecessora IFT-10 teve um destino similar: dos 41 blocos ofertados, 38 não receberam propostas.

A consequência direta dessa política de preços é um movimento de devolução de frequências. Em 2019, a Telefónica abriu mão de todo o seu espectro no país, citando o peso financeiro da operação. A própria AT&T já retornou blocos em regiões importantes, como Cidade do México e Guadalajara. Para o governo, a estratégia arrecadatória se mostrou um tiro no pé, gerando perdas bilionárias em receita que deixou de ser coletada.

A geopolítica e o ‘Plano México’

O pano de fundo para a tímida redução de preços é a estratégia de desenvolvimento econômico do país, o chamado ‘Plano México’, que visa atrair investimentos estrangeiros em um movimento de ‘nearshoring’. Uma infraestrutura de telecomunicações deficiente, no entanto, é um claro entrave para essa ambição. A situação já chama a atenção de parceiros comerciais: o escritório de representação comercial dos Estados Unidos (USTR) apontou os altos preços do espectro como uma barreira para empresas como a AT&T.

O atraso mexicano fica evidente na comparação regional. Dados da GSMA mostram que a taxa de crescimento da cobertura 5G no país é de 24 pontos, atrás do Brasil (30) e do Chile (33). O país utiliza apenas 695 MHz para serviços móveis, muito abaixo dos 1.280 MHz recomendados pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) para garantir qualidade e cobertura.

A próxima licitação de espectro será, portanto, um teste decisivo. O desafio do regulador mexicano não será apenas vender frequências, mas convencer um mercado cético — e com players como a AT&T em meio a incertezas sobre sua permanência no país — de que vale a pena voltar a investir. A questão central é se o governo está disposto a trocar receita fiscal de curto prazo por competitividade de longo prazo. O futuro digital do México depende dessa resposta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX