Michael Burry, o investidor que ganhou notoriedade mundial ao antecipar a crise financeira de 2008, voltou a colocar uma empresa de Elon Musk sob seu radar. Recentemente, Burry revelou ter analisado opções de venda contra a SpaceX, que realizou sua oferta pública inicial na semana passada. Embora a empresa tenha alcançado uma valorização de mercado próxima a US$ 3 trilhões logo após sua estreia, o ceticismo do gestor da Scion Asset Management reflete um debate mais amplo sobre a sustentabilidade do modelo de negócio espacial liderado por Musk.
Em uma publicação em sua conta no Substack, Burry detalhou ter estudado o custo de derivativos com vencimentos para 2026 e 2027. Apesar de ter admitido uma tentação inicial em apostar contra a companhia, ele concluiu que o risco não compensava. A leitura de Burry é que o mercado está precificando a SpaceX com base em expectativas que não se alinham à realidade operacional de uma empresa que, em sua visão, mistura serviços de nicho, telecomunicações e uma estrutura corporativa complexa.
A realidade financeira por trás do otimismo
O ceticismo de Burry encontra respaldo nos dados apresentados no prospecto de abertura de capital da SpaceX. Embora a receita tenha registrado um crescimento robusto, saltando de US$ 14,1 bilhões em 2024 para US$ 18,7 bilhões em 2025, a trajetória dos prejuízos é igualmente ascendente. O déficit acumulado da companhia atingiu US$ 41,3 bilhões até o final do primeiro trimestre de 2026, com um prejuízo líquido trimestral de US$ 4,27 bilhões, um salto expressivo em comparação aos US$ 528 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.
Além da queima de caixa, a análise de especialistas como David Trainer, da New Constructs, traz à tona um ponto de atenção para os investidores de varejo: a destinação dos recursos captados no IPO. Segundo o levantamento, cerca de 78% do capital projetado de US$ 80 bilhões já estava comprometido para o pagamento de dívidas, fornecedores e investidores institucionais, como a Valor Equity Partners e a xAI. Esse cenário sugere que a liquidez imediata da oferta não será integralmente revertida para expansão operacional, mas para saneamento de passivos de terceiros.
Dinâmicas de mercado e o fator Musk
O embate entre investidores e Elon Musk é um fenômeno recorrente no mercado de capitais. O histórico de hostilidade pública de Musk contra quem aposta contra suas empresas, como visto no caso notório contra Bill Gates e o short na Tesla, cria um ambiente onde o racional financeiro frequentemente se mistura a tensões pessoais. Para o mercado, a SpaceX representa um ativo único, mas que exige uma análise que vai além da euforia espacial.
A descrição de Burry sobre a SpaceX como um 'Coreweave-light' e uma empresa de telecomunicações disfarçada indica que o mercado pode estar superestimando o componente espacial em detrimento de seus outros braços de negócio. A complexidade de avaliar uma empresa que atua em múltiplas frentes de tecnologia de ponta, enquanto lida com déficits bilionários, coloca a SpaceX em uma categoria de risco que desafia os modelos de valuation tradicionais.
Implicações para o ecossistema de capitais
A abertura de capital da SpaceX serve como um teste de estresse para o apetite de risco dos investidores globais. O sucesso ou fracasso da tese de investimento em exploração espacial depende da capacidade de Musk em converter a escala da receita em fluxo de caixa positivo. Reguladores e analistas observam atentamente se o uso de capital para pagar dívidas de investidores internos, em vez de investir em P&D, será visto como um sinal de maturidade financeira ou um alerta de governança.
Para o ecossistema brasileiro, o caso SpaceX ilustra a importância da transparência em IPOs de empresas de tecnologia de alto crescimento. A capacidade de um investidor como Burry de dissecar o S-1 da companhia reforça que, independentemente da popularidade do fundador, a disciplina na análise de fundamentos continua sendo o principal filtro para evitar bolhas especulativas em setores de capital intensivo.
O que observar no horizonte
A incerteza permanece sobre como a SpaceX gerenciará o crescimento de suas operações de telecomunicações e o financiamento contínuo de suas ambições marcianas frente a um mercado que exige resultados de curto prazo. A evolução da margem operacional nos próximos trimestres será o indicador definitivo para validar se a valorização atual é sustentável ou se o ceticismo de investidores experientes possui fundamento técnico.
O mercado aguarda agora os próximos relatórios trimestrais para entender se a empresa conseguirá reverter o déficit acumulado enquanto mantém a velocidade de inovação. A trajetória da SpaceX, sob o escrutínio de Wall Street, ditará o tom para futuras aberturas de capital no setor de tecnologia espacial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





