A Minerva Foods, um dos gigantes brasileiros do setor de carnes, vive uma dualidade imposta pela geopolítica. De um lado, uma janela de oportunidade inesperada se abriu nos Estados Unidos, com a suspensão temporária de tarifas sobre a cota de importação de carne bovina, beneficiando diretamente Brasil e Paraguai. Do outro, uma porta crucial ameaça se fechar na China, seu principal mercado, que está prestes a atingir a cota anual de importação, o que acionaria uma sobretaxa de 55% sobre o volume excedente.
Este cenário de portas que se abrem e fecham simultaneamente resume o desafio da indústria e cristaliza a tese da gestão da Minerva: a sobrevivência no mercado global de commodities depende de uma combinação de agilidade tática e disciplina financeira de longo prazo. Segundo reportagem do Brazil Journal, a companhia responde com duas obsessões claras: diversificar geograficamente e desalavancar seu balanço de forma agressiva.
A geopolítica no prato
A volatilidade do comércio global, marcada por cotas e tarifas, tornou a diversificação mais do que uma estratégia, mas uma condição de existência. “Cotas e tarifas viraram uma nova realidade que faz com que a gente realmente esteja diversificado”, afirmou o CEO Fernando Queiroz. A estrutura da Minerva, com operações em Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Austrália, funciona como um hedge natural, permitindo redirecionar a produção conforme as barreiras comerciais se movem.
Essa estratégia defensiva tem um custo. A companhia aumentou conscientemente seus estoques para R$ 5,3 bilhões, consumindo cerca de R$ 1,3 bilhão em caixa no primeiro semestre. O CFO Edison Ticle classifica o movimento como um “investimento na operação”, com a expectativa de gerar mais de R$ 2,7 bilhões em caixa no segundo semestre ao normalizar os níveis de estoque. É uma aposta calculada de que o capital de giro empregado agora se converterá em lucro adiante, aproveitando as flutuações de oferta e demanda.
A obsessão pela desalavancagem
Paralelamente à diversificação, a outra obsessão da Minerva é financeira. A alavancagem, atualmente em 2,9 vezes o EBITDA, é considerada elevada pela gestão, especialmente diante do patamar da taxa Selic. A meta, segundo Ticle, é mais sofisticada do que um número absoluto: o objetivo é garantir que as despesas financeiras não consumam mais de 35% do EBITDA, o que, nas condições atuais, implicaria um endividamento máximo de 1,7 vez.
Para atingir esse alvo, a companhia tomou uma decisão pragmática e amarga para alguns acionistas: a distribuição de dividendos foi reduzida temporariamente do patamar de 50% do lucro líquido para o mínimo legal de 25%. A mensagem é clara: a prioridade absoluta é fortalecer o balanço e reduzir o risco financeiro, mesmo que isso signifique um menor retorno de curto prazo. A desalavancagem, repetida enfaticamente pelo CFO, tornou-se o mantra da companhia.
O mercado, por sua vez, parece cético ou impaciente, com a ação da Minerva acumulando uma queda de 35% em 12 meses. A gestão aposta que, ao tourear as complexidades do cenário global com disciplina financeira, conseguirá provar que a estratégia de fortalecer a estrutura hoje é o caminho para garantir a rentabilidade de amanhã.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





