No início dos anos 2000, em Bangladesh, uma criança solitária assiste a uma cena surreal na televisão: um lutador conhecido como The Undertaker, “o Homem Morto”, é literalmente enterrado vivo por seu irmão Kane. Para a escritora P. Paramita, essa foi a porta de entrada para o universo do pro wrestling, um espetáculo de excessos que, paradoxalmente, oferecia refúgio para quem se sentia à margem.
O que começa como fascínio pela performance explícita de masculinidade e violência logo revela suas fissuras. O wrestling, como Paramita descreve em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, era um território complexo. Se por um lado oferecia narrativas cativantes de superação, por outro reforçava dinâmicas problemáticas: mulheres relegadas a papéis secundários e lutadores não-brancos frequentemente escalados como vilões estereotipados. Esse desconforto a afastou do esporte por anos. A leitura aqui é que o wrestling sempre foi um espelho exagerado da cultura, refletindo tanto suas aspirações quanto seus preconceitos mais arraigados.
Uma performance de poder
A atração inicial pelo pro wrestling, segundo a análise da autora, residia em sua capacidade de ser um canal para frustrações e desejos não expressos. Para uma jovem que se sentia deslocada, ver os “mocinhos” triunfarem era uma forma de consolo. Havia também uma admiração pela fisicalidade e pela autoridade com que os lutadores comandavam o ringue e o microfone, algo que ela posteriormente identificou como uma espécie de “inveja de gênero reprimida”.
Contudo, a estrutura do espetáculo era limitante. A World Wrestling Entertainment (WWE), principal empresa do setor, mantinha um ecossistema predominantemente branco e masculino. As narrativas eram construídas em torno de “homens musculosos gritando sobre sua masculinidade”, com as mulheres servindo como meros adereços. O esporte, que parecia oferecer um escape, na verdade reproduzia as mesmas hierarquias do mundo exterior, tornando a experiência insustentável para uma audiência que começava a demandar mais complexidade.
A revolução feminina e digital
O ponto de virada aconteceu por volta de 2015. Uma campanha nas redes sociais, com a hashtag #GiveDivasAChance, pressionou a WWE a dar mais espaço e seriedade às suas lutadoras. A empresa cedeu. As mulheres começaram a receber mais tempo de tela, roteiros mais elaborados e a protagonizar os principais eventos. Simultaneamente, o elenco se diversificou, incluindo mais atletas de cor, da comunidade LGBTQ+ e com diferentes tipos físicos. Essa mudança no ringue atraiu um novo fã.
Paramita relata que foi essa nova era que a trouxe de volta. A experiência de assistir a um evento ao vivo em Boston, onde pela primeira vez as mulheres foram a atração principal, foi transformadora. O público — homens, mulheres, crianças — estava unificado. A partir daí, ela encontrou online uma comunidade de fãs com quem podia discutir, analisar e celebrar essa nova fase. O fandom digital se tornou o que o próprio wrestling havia sido na infância: um lugar de pertencimento. O movimento sugere que a vitalidade de uma propriedade intelectual hoje depende de sua capacidade de evoluir com sua audiência.
Para a autora, o wrestling funciona como uma performance de drag: os atletas vestem personas, experimentam com figurinos e constroem uma química entre o herói (babyface) e o vilão (heel) para cativar o espectador. Quando essa performance é protagonizada por corpos e histórias que fogem do padrão, o potencial de conexão se multiplica. O espetáculo, em sua estranheza e imprevisibilidade, talvez não seja sobre a luta em si, mas sobre a busca por um lugar no mundo e a alegria de encontrá-lo junto a uma comunidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





