O gênero noir, com suas sombras persistentes, diálogos afiados e anti-heróis cativantes, é frequentemente associado a diretores e atores masculinos. No entanto, uma série de filmes em exibição em Toronto, intitulada "Secret Beyond the Door: The Women Who Wrote Noir", lança uma luz crucial sobre as mentes femininas que teceram a complexidade e o fascínio dessas narrativas sombrias. A mostra, que exibe oito filmes em 35 mm, celebra especificamente o trabalho de roteiristas mulheres que foram fundamentais para a criação de alguns dos clássicos mais duradouros do cinema.

O Legado Subestimado das Mulheres no Noir

A série abre com "The Hitch-Hiker" (1953), dirigido por Ida Lupino, uma cineasta notável por sua abordagem documental e temas desafiadores. Lupino, que também coescreveu o roteiro com Collier Young, baseou-se em um crime real, transformando a história em um suspense claustrofóbico. Scorsese, em 1995, já reconhecia a maestria de Lupino, descrevendo seus filmes como "peças de câmara" notáveis. "The Hitch-Hiker" é citado como um exemplo de seu trabalho mais ousado, um "noir vicioso" em que grande parte da ação se desenrola dentro do carro e nas estradas desertas, criando uma sensação de purgatório para seus personagens.

Arquitetas de Clássicos Inesquecíveis

Outro destaque da programação é "The Big Sleep" (1946), adaptação do romance de Raymond Chandler, com roteiro de William Faulkner, Jules Furthman e Leigh Brackett. Brackett, uma figura central na escrita de noir, foi inicialmente confundida com um homem por Howard Hawks. O filme, aclamado por sua narrativa enigmática e diálogos memoráveis, é considerado por muitos o ápice do gênero. A complexidade da trama, que desafia a compreensão, é vista não como uma falha, mas como parte de seu "efeito sensacional e longevidade notável", flutuando na consciência do espectador como fragmentos de um sonho.

Vozes Femininas em Thrillers Góticos e Suspenses

"My Name Is Julia Ross" (1945), de Joseph H. Lewis, escrito por Muriel Roy Bolton, adapta o romance "The Woman in Red". O filme é descrito como um thriller gótico sobre uma secretária londrina que se vê presa em uma teia de engano ao ser contratada por uma senhora aparentemente doce, mas cujo filho é psicótico. O diretor Lewis considerou o roteiro "quase perfeito". "Secret Beyond the Door" (1947), de Fritz Lang, com roteiro de Silvia Richards, também se beneficia de interferências de estúdio, resultando em uma obra que, apesar das mudanças, mantém uma aura de mistério e explora motivações complexas.

O Poder da Narrativa Feminina no Noir

"The Unsuspected" (1947), de Michael Curtiz, baseado em obra de Charlotte Armstrong, é outro exemplo de noir "subestimado" com uma "majestade proibitiva e onírica". Barbara Stanwyck estrela "The File on Thelma Jordon" (1950), cuja história é de Marty Holland e o roteiro de Ketti Frings, futura vencedora do Pulitzer. Finalmente, "Sorry, Wrong Number" (1948), de Anatole Litvak, baseado na peça de rádio de Lucille Fletcher, demonstra como a ação, mesmo confinada a uma linha telefônica, pode gerar tensão visual e narrativa. Esses filmes, unidos pela autoria feminina, mostram a profundidade e a resiliência do gênero noir, provando que as mulheres foram, e continuam sendo, essenciais para a sua construção e perpetuação.

Com reportagem da Criterion: https://www.criterion.com/current/posts/9334-the-women-who-wrote-noir

Source · Criterion Daily