Agnès Varda, a icônica cineasta francesa, autodenominou-se em sua autobiografia "une féministe de terrain plus qu’une discuteuse", uma tradução que ressalta sua atuação como "feminista de campo" em detrimento de uma "discutidora teórica". Essa distinção é central para a compreensão de sua vasta obra cinematográfica, onde a prática e a observação do cotidiano feminino se sobrepõem a discursos acadêmicos ou panfletários. Varda não se via necessariamente integrada a grupos feministas que debatiam sua obra, sugerindo uma independência em sua abordagem que, para muitos, permanece atual e instigante.
O corpo e a experiência feminina
Em filmes como o curta "Réponse de femmes: Notre corps, notre sexe" (1975), Varda convida o espectador a refletir sobre a pergunta "O que significa ser mulher?". A resposta, apresentada de forma direta e despojada, é que "nascer mulher significa nascer com genitais femininos" e, em seguida, "ser mulher significa habitar um corpo de mulher". Essa abordagem, que pode ser interpretada como essencialista por alguns, é, na verdade, uma afirmação da experiência corpórea como ponto de partida fundamental para a identidade feminina. A nudez explícita e recorrente em sua filmografia, desde "L'opéra-mouffe" (1958), onde ela própria aparece grávida, até "Réponse de femmes", normaliza a presença do corpo feminino na tela, tratando-o com a mesma naturalidade de objetos cotidianos, como flores sobre uma mesa. Essa persistência em mostrar mulheres nuas como algo corriqueiro e sem artifícios é uma marca registrada de sua carreira.
Ternura como princípio político
O que permeia a obra de Varda é uma profunda ternura, um princípio que orienta seu olhar sobre os sujeitos de suas filmagens. Essa ternura se manifesta em sua abordagem a uma tríade de condições femininas: a alegria intrínseca ao ato de criar filhos, a facilidade da vida quando mulheres se unem em parcerias, e a vulnerabilidade da mulher solitária em um mundo moldado por e para homens. "L'opéra-mouffe", seu terceiro filme, já demonstra essa capacidade de capturar a essência de suas futuras obras. Apesar de sua curta duração, o filme estabelece a linguagem cinematográfica de Varda, caracterizada por um amor profundo em seu olhar, que a diferenciava de seus contemporâneos da Nouvelle Vague. Seu conceito de amor é mais essencial e profundo do que meramente decorativo ou estratégico.
Observação e abstração
Em "L'opéra-mouffe" (1958), Varda filma os desabrigados da rue Mouffetard com um olhar que remonta à infância e à ternura inicial. Ela observa que "todos eles – os velhos, o de um olho só, e os sem-teto – um dia foram bebês, recém-nascidos frequentemente amados, cujas barrigas foram beijadas e cujas bundas foram polvilhadas". Essa percepção da fragilidade e da história de cada indivíduo, mesmo em condições de sofrimento visível, é entrelaçada com cenas de pessoas mais felizes em seu cotidiano, e com imagens surrealistas que beiram o onírico, como uma fatia de limão representando o sol ou um pássaro aprisionado em um vidro. Varda descrevia essas sequências como "imagens de sonho do chamado cinema marginal", buscando uma forma cinematográfica que unisse a "verdade de um Cartier-Bresson" com a liberdade da abstração.
Um olhar para o futuro
A obra de Agnès Varda, com sua ênfase na experiência vivida e na ternura como força motriz, continua a ressoar. Sua recusa em se prender a debates teóricos em favor de uma prática cinematográfica engajada e observacional oferece um modelo de como o feminismo pode ser vivido e expresso através da arte. As perguntas sobre a identidade feminina, a maternidade e a condição da mulher em sociedade, que ela levantou com tanta graça e agudeza, permanecem abertas, convidando novas gerações a refletir sobre suas próprias experiências e a buscar sua própria "ternura de campo".
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MUBI Notebook





