Beatrice Gibson, nome já consolidado no circuito de cinema experimental, marca sua transição para o longa-metragem com "At Night", obra que estreou no Festival de Locarno e já desperta atenção internacional. Com quase duas décadas dedicadas a curtas que colecionam prêmios em festivais como Cannes, Roterdã e a Bienal de Veneza, Gibson demonstra com seu primeiro longa uma maturidade artística que a posiciona como uma diretora emergente de grande potencial.

Trajetória de Reconhecimento

Os curtas de Gibson, como "Agatha" (2012) e "The Tiger’s Mind" (2013), que lhe renderam o prestigioso Tiger Award for Short Film em Roterdã, já sinalizavam um talento singular. Críticos como Michael Sicinski apontam para uma "promissora nova tendência no cinema experimental", onde a fronteira entre o experimental e o narrativo se dissolve. Gibson navega nesse "universo de Um Cinema", inspirando-se em mestres como David Lynch e Jean-Luc Godard, mas sem deixar de lado a exploração das potencialidades formais e materiais da própria linguagem cinematográfica. "I Hope I’m Loud When I’m Dead" (2018), por exemplo, é citado como um exemplo dessa fusão, culminando em uma releitura de "Beau Travail" de Claire Denis.

"At Night": Um Retrato Hipnótico de Paris

"At Night" é descrito como um filme contemplativo, imerso em uma noite parisiense onírica, cuja beleza visual esconde uma profunda curiosidade temática. A obra, com apenas 87 minutos, evoca a obra de cineastas como Chantal Akerman e Wim Wenders, apresentando uma narrativa que flui com lirismo e direta. A fotografia noturna, assinada por Ben Rivers, transforma as ruas, becos e estabelecimentos parisienses em cenários mágicos, capturando a atmosfera de bares e vielas com uma sensibilidade particular.

Explorações de Identidade e Privilégio

A trama acompanha B, uma cineasta britânica em Paris, em busca de locações para um futuro projeto. A própria Gibson atua no filme, explorando as complexidades de sua personagem e as dinâmicas de classe e identidade. Uma cena marcante em um bar, inspirada em "Variety" (1983) de Bette Gordon, reúne diversas mulheres — artistas, poetisas, produtoras — cujas interações multifacetadas e a tensão inerente compõem um dos pontos altos do filme. A cineasta admite que a questão do privilégio, tanto o seu quanto o de outras personagens, foi um motor essencial para a narrativa, criando um "tensão crítica" que a levou a se incluir no roteiro para investigar essas nuances. A edição de Liyo Gong é destacada por Gibson como coautora da construção da "lonely, wandering, sad self" da protagonista.

Source · Criterion Daily