Marc Lore, o empreendedor bilionário por trás de empresas como a Jet.com, está aplicando uma nova lógica à gestão de talentos em sua mais recente startup, a food-tech Wonder. A companhia utiliza um sistema de inteligência artificial para determinar quem deve ser promovido, transformando a progressão de carreira em um cálculo algorítmico.
A abordagem, detalhada por Lore em uma entrevista à revista Fortune, busca remover a subjetividade do processo. A tese é que, ao se basear em dados, as promoções se tornam mais justas. O experimento da Wonder representa uma das aplicações mais radicais de IA na gestão de recursos humanos, um campo tradicionalmente dominado por avaliações qualitativas e relações interpessoais.
A matemática da carreira
O sistema da Wonder funciona com base em um fluxo contínuo de dados. A cada seis meses, cada funcionário é avaliado por pelo menos uma dúzia de colegas em critérios como desempenho, comportamento e liderança. Essas pontuações, somadas a feedbacks escritos, alimentam o algoritmo.
A IA também considera uma métrica batizada de "valor acima da substituição" (VAR, na sigla em inglês), que mede quão difícil seria substituir aquele profissional por outro do mesmo nível. "Entre sua pontuação de VAR e sua pontuação de gestão de desempenho, a IA basicamente calcula se você deve ou não ser promovido", disse Lore à Fortune, descrevendo o processo como "muito objetivo". A lógica segue o perfil de Lore, que historicamente aborda problemas de negócios como equações a serem resolvidas.
O gerente como validador do algoritmo
Nesse modelo, o papel do gestor humano é redefinido. A gerência pode discordar da recomendação da IA e vetar uma promoção, mas precisa apresentar um argumento convincente. Esses casos, segundo Lore, são cada vez mais raros e servem como dados para aprimorar o próprio algoritmo. Na prática, o gestor deixa de ser o decisor principal para se tornar um auditor do sistema.
A iniciativa não é um mero teste em uma empresa pequena. A Wonder, que opera 135 refeitórios na costa leste dos EUA, captou recentemente US$ 650 milhões e tem uma avaliação de US$ 9 bilhões, com planos de abrir capital no próximo ano. A automação das promoções espelha a automação das cozinhas da empresa, onde sistemas robóticos já produzem centenas de pratos por hora.
A aposta de Lore em um RH quantificado promete corrigir vieses e aumentar a meritocracia. Contudo, levanta um debate fundamental sobre o futuro da gestão de pessoas. Resta saber se a complexidade de uma carreira, com suas nuances e contribuições intangíveis, pode ser de fato encapsulada em um score — e quais os efeitos colaterais de se tentar fazê-lo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





