A Natura iniciou o processo de seleção para a quarta edição do Natura Innovation Challenge (NIC), seu programa de aceleração voltado a startups e marcas de beleza em toda a América Latina. A iniciativa, que está com inscrições abertas até o dia 28 de junho, selecionará entre sete e dez empresas para uma jornada de mentorias e provas de conceito. O movimento reflete o compromisso financeiro da companhia com a inovação, que atingiu o montante de R$ 1,4 bilhão em 2025, um incremento de 40% em relação ao exercício anterior.

Segundo José Manuel Silva, Vice-Presidente de Novos Negócios da Natura, a estratégia visa responder à velocidade com que novas tecnologias surgem no setor de cuidados pessoais. A empresa utiliza a inovação aberta como principal alavanca para acessar soluções disruptivas e integrá-las ao portfólio, reduzindo incertezas e otimizando o time-to-market. A leitura aqui é que a Natura busca não apenas capitalizar tendências, mas garantir a relevância operacional em um mercado cada vez mais fragmentado por nativas digitais.

O novo modelo de inovação aberta

O programa de 2026 marca uma mudança estrutural importante ao abrir espaço, pela primeira vez, para marcas independentes, comunidades e plataformas, saindo do escopo estritamente tecnológico. A iniciativa se divide agora em duas trilhas principais: a Cocriação de Produtos, focada na validação de tendências, e as Collabs de Marca, que utilizam a capilaridade dos canais da Natura para escalar novos formatos de ativação. Essa segmentação sugere que a companhia entende que a inovação no setor de beleza não reside apenas em patentes de laboratório, mas na capacidade de engajamento e na construção de comunidades.

Historicamente, a Natura sempre manteve um dos maiores centros de P&D do hemisfério sul, com centenas de pesquisadores e patentes registradas. Ao abrir esse centro para startups selecionadas, a empresa cria uma via de mão dupla: as startups ganham acesso a uma infraestrutura técnica que seria proibitiva para o estágio atual de seus negócios, enquanto a Natura se beneficia da agilidade e da visão de mercado dessas empresas menores, mitigando o risco de obsolescência interna.

Mecanismos de colaboração e incentivos

O modelo equity-free do NIC é um ponto central para atrair empreendedores que desejam manter o controle de seus negócios enquanto testam a viabilidade de parcerias com uma corporação de grande porte. A dinâmica de colaboração prevê que as startups passem por diagnósticos estratégicos e testes de mercado, utilizando a rede de consultoras da Natura e Avon como campo de prova. Esse mecanismo é fundamental, pois permite que a Natura valide novas propostas de valor sem a necessidade de uma aquisição prematura, mantendo a flexibilidade do ecossistema.

Além disso, o incentivo para a participação de empresas com diversidade de gênero e raça, bem como a representatividade regional, sinaliza que a Natura está alinhando sua estratégia de inovação aos seus compromissos ESG. A colaboração com a EloGroup para a execução do programa reforça a necessidade de uma governança estruturada para mediar a relação entre a cultura ágil das startups e a complexidade administrativa de uma gigante do varejo.

Implicações para o mercado de beleza

Para o mercado, o movimento da Natura indica uma pressão competitiva crescente vinda de marcas nativas digitais. Ao integrar essas empresas ao seu ecossistema, a Natura não apenas se defende, mas também se posiciona como um hub de inovação regional, algo essencial para manter sua competitividade frente a competidores globais que também buscam capturar o consumidor latino-americano. Para as startups, o desafio será manter a identidade original enquanto operam dentro das normas e processos de uma corporação estabelecida.

O impacto para o ecossistema brasileiro de empreendedorismo é positivo, ao oferecer um canal de escala para empresas de beleza que já superaram a fase de ideação. A possibilidade de abrir novos canais de distribuição dentro do ecossistema da Natura representa um salto de maturidade para qualquer marca independente que busca capilaridade nacional ou regional. A tensão, contudo, permanece na capacidade de integração cultural entre a agilidade das startups e o ritmo de uma empresa de capital aberto.

Perspectivas futuras e incertezas

O sucesso desta edição do NIC será medido não apenas pelo número de inscrições, mas pela efetividade das provas de conceito em se tornarem produtos ou serviços perenes dentro do portfólio da companhia. A incerteza reside na escalabilidade das soluções cocriadas, dado que a transição de um teste piloto para um modelo de larga escala exige um nível de coordenação logística e comercial que muitas vezes esbarra na burocracia corporativa.

Será necessário observar como a Natura equilibrará a autonomia das marcas selecionadas com a necessidade de manter a consistência da marca mãe. O mercado acompanhará se essa estratégia de inovação aberta será suficiente para sustentar o crescimento da companhia nos próximos anos diante de um cenário de consumo cada vez mais volátil e exigente por personalização.

A estratégia de inovação aberta da Natura, ao expandir seu escopo para marcas independentes, demonstra uma tentativa clara de se adaptar à nova realidade do varejo de beleza, onde a agilidade é tão valiosa quanto a capacidade produtiva. O resultado dessa aposta dependerá da capacidade da companhia em integrar essas novas vozes sem diluir a própria identidade, mantendo a relevância em um mercado em constante mutação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney