A capacidade de uma organização em navegar por turbulências, sejam elas desastres naturais, conflitos geopolíticos ou choques econômicos, é cada vez mais um diferencial competitivo. Para Philipp Navratil, CEO da Nestlé, a força de uma empresa reside em suas equipes. Ele argumenta que a resiliência de um time não é uma característica que surge espontaneamente em momentos de aperto, mas sim o resultado de um trabalho contínuo e deliberado de construção de bases sólidas.

Navratil, que lidera uma força de trabalho global com mais de 270.000 colaboradores, identifica duas qualidades essenciais em equipes resilientes: a capacidade de trabalhar bem em conjunto e a existência de um propósito comum. Essa sinergia, segundo ele, é forjada na confiança mútua entre líderes e liderados. "É realmente sobre transparência, confiança", afirmou Navratil em conversa com o Business Insider, ressaltando a importância de uma liderança em quem se pode confiar, especialmente em situações de crise.

Fundamentos da Resiliência

A construção de equipes verdadeiramente resilientes vai além de um simples desejo de colaboração. Requer a criação de um ambiente onde a confiança floresça e os membros compreendam profundamente o papel e as contribuições de cada um. Navratil enfatiza que essa confiança não é unilateral; líderes precisam de pessoas em quem possam contar, indivíduos capazes de tomar decisões ponderadas que sirvam aos melhores interesses da empresa. O CEO descreve esse processo como uma "jornada", reconhecendo que não é uma tarefa fácil, mas que os resultados são recompensadores.

Quando esses elementos — confiança, propósito e tomada de decisão sólida — estão presentes no dia a dia, as equipes tornam-se "incrivelmente poderosas". Elas não precisam esperar por uma crise para demonstrar seu potencial. A prática constante de operar com esses valores prepara os colaboradores para enfrentar qualquer adversidade, mantendo o ímpeto e a direção da empresa. A percepção de que tais equipes são construídas especificamente para responder a crises é, para Navratil, um equívoco. "Não, é apenas um time realmente forte com o propósito certo, a responsabilidade certa e o nível certo de confiança", explicou.

O Papel da Liderança

A liderança desempenha um papel crucial nesse processo. Ao invés de focar apenas em planos de contingência, os líderes devem investir na estrutura e na cultura da equipe. Isso significa promover a comunicação aberta, reconhecer e valorizar as contribuições individuais, e garantir que todos compreendam a visão e os objetivos maiores da organização. No contexto da Nestlé, Navratil citou o exemplo de colaboradores no Oriente Médio e na Ucrânia, que demonstraram notável união e foco em momentos de extrema dificuldade, alinhados a um objetivo comum.

A gestão de uma força de trabalho tão vasta e diversificada como a da Nestlé expõe o CEO a uma miríade de desafios. Sua perspectiva sugere que a preparação para crises é, na verdade, uma prática contínua de fortalecimento das relações e do alinhamento estratégico. A habilidade de manter a coesão e a eficácia sob pressão não é um acaso, mas o reflexo direto de um investimento consistente no capital humano e na cultura organizacional.

Implicações e Perspectivas

A abordagem de Navratil oferece um modelo valioso para empresas de todos os portes e setores. Em um mundo cada vez mais volátil, a capacidade de adaptação e a resiliência das equipes se tornam ativos estratégicos. A ênfase na confiança e no propósito compartilhado pode ser particularmente relevante para o cenário corporativo brasileiro, onde a construção de culturas fortes e colaborativas é um caminho para mitigar riscos e impulsionar o crescimento.

O CEO da Nestlé, ao compartilhar suas percepções, convida outras lideranças a refletirem sobre como suas próprias organizações estão cultivando a resiliência. A lição principal é que a força de uma equipe em tempos de crise é um espelho da solidez construída em tempos de calmaria.

Perguntas em Aberto

Embora Navratil ofereça um roteiro claro, a implementação prática desses princípios pode variar significativamente entre diferentes culturas organizacionais e contextos de mercado. A questão que permanece é como as empresas podem efetivamente medir e fomentar essa confiança e propósito compartilhado em larga escala, especialmente em ambientes de trabalho remotos ou híbridos, que se tornaram a norma para muitas organizações.

A contínua evolução das dinâmicas de trabalho e os desafios globais emergentes exigirão que as empresas inovem constantemente em suas estratégias de gestão de equipes. O modelo da Nestlé, centrado na confiança e no propósito, oferece um ponto de partida robusto, mas a jornada para a resiliência completa é, sem dúvida, contínua.

A experiência da Nestlé sugere que o caminho para a resiliência não é uma corrida, mas uma maratona. A construção de equipes fortes, com confiança e propósito claros, é um investimento de longo prazo que rende dividendos inestimáveis quando os desafios inevitavelmente surgem. A beleza dessas equipes, como descrito por Navratil, desabrocha não em resposta a uma crise, mas como um resultado natural de um ambiente de trabalho bem cultivado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider