A National Gallery of Victoria (NGV), em Melbourne, abriu as portas para a exposição "Plant Life: The Nature of Design", uma imersão profunda na relação entre a humanidade e o reino vegetal através da lente do design. Com mais de 60 obras que abrangem mobiliário, arquitetura, artes decorativas, artesanato, fotografia e cinema, a mostra propõe um futuro onde os materiais de origem vegetal não são apenas uma alternativa, mas a fonte dominante de criação.

A exposição parte de uma premissa histórica: por milênios, antes do advento dos produtos petroquímicos, a vida humana dependia intrinsecamente de recursos vegetais, animais e minerais. "A ideia de vida cíclica era fundamental por milhares de anos, em todas as culturas", explica Ewan McEoin, curador sênior de design contemporâneo e arquitetura da NGV. "O que estamos tentando fazer é olhar para um futuro onde as plantas retornam como a fonte dominante."

A Natureza como Laboratório de Design

A exposição não se limita a exibir objetos; ela funciona como um laboratório de ideias, apresentando inovações materiais que buscam solucionar desafios ambientais prementes. Um exemplo notável é o uso de um novo biomaterial local, o Plantbord, composto por placas de cânhamo desenvolvidas pelo designer australiano Joost Bakker e pela fornecedora de materiais de construção sustentável Forest One. Ligado com Plantics, a primeira resina termofixa 100% de base biológica do mundo, este material foi empregado na fabricação dos pedestais e superfícies de exposição, demonstrando a aplicabilidade prática de alternativas sustentáveis.

A curadoria selecionou oito inovações particularmente instigantes. Entre elas, os blocos de bio-alvenaria "Urgent Is The Rhythm" de Kate Scardifield, que combinam biomassa de algas e resíduos de casca de ostra para criar materiais de construção. A artista e pesquisadora de materiais de Sydney utilizou mais de uma tonelada de biomassa de algas, coletada de indústrias aquícolas, misturada com resíduos de ostras para formar os blocos. O estúdio de arquitetura Edition Office imaginou edifícios inteiros construídos com esse material, visualizando a algocultura em escala agrícola e o armazenamento de carbono durante a construção.

Inovação em Moda e Materiais Têxteis

A moda também figura proeminentemente, com a jaqueta de "couro" vegetal "Ecotono Shiringa", criada pelo estúdio têxtil Mozhdeh Matin em colaboração com o povo Awajún da Amazônia Peruana. Utilizando o látex da árvore shiringa, coletado por meio de cortes superficiais na casca, a comunidade indígena produz um material à prova d'água semelhante ao couro, sem derrubar as árvores. Essa técnica tradicional, que preserva a floresta, é documentada no filme "Shiringa: Fashion Regenerating Amazonia", acompanhando a jaqueta na exposição.

Outra peça de destaque é a "Ply Loop Chair" de Joris Laarman, que emprega a resina Plantics, derivada de resíduos agrícolas, para ligar compensados. Este material substitui adesivos tóxicos convencionais, sendo não tóxico, reciclável e biodegradável. A forma contínua e em loop da cadeira foi viabilizada por design e fabricação digital. O estúdio Crafting Plastics apresenta o "Sensbiom 2.1", um plástico vegetal em forma de rede que muda de cor sob radiação ultravioleta, servindo como um indicador visual de condições ambientais invisíveis.

Reflexões sobre Consumo e Sustentabilidade

O designer Fernando Laposse contribui com a "Resting Place daybed", um divã cujos tecidos são tingidos com pigmentos de sementes de abacate e flores de calêndula. O patchwork, inspirado na técnica japonesa Boro de reparo têxtil, é costurado com imagens de armas e motosserras, uma referência à necessidade de "reparar um sistema quebrado". Laposse busca conscientizar sobre a crise ecológica e social no México, impulsionada pela crescente demanda global por abacates.

Bart Schilder apresenta a "Banet dining chair naked", uma cadeira de jantar feita de fibra de cânhamo e cogumelos. O núcleo da cadeira é formado por fibra de cânhamo fundida com micélio, a rede de fungos que atua como um adesivo natural. A produção desta cadeira gera cerca de cinco quilos de CO2, uma fração do impacto de cadeiras equivalentes de plástico. A casa de moda vietnamita Lo Silk demonstra a beleza da seda preta rara "Lanh My A", tingida através de um processo vegetal único da região do Delta do Mekong, que escurece o material por oxidação e repetidos tratamentos.

O Futuro em Crescimento

Finalmente, a "Mycelium Wildfire Jacket", resultado de uma colaboração entre Judith Glover, Tien Huynh, Mohamad Arekha Bentangan e Alexi Freeman da RMIT University, explora o potencial do couro de micélio cultivado a partir de resíduos agrícolas. Este protótipo de jaqueta corta-fogo demonstra a capacidade do material de se auto-extinguir e oferece durabilidade, resistência ao fogo e isolamento térmico aprimorados.

A exposição "Plant Life: The Nature of Design" não é apenas uma vitrine de criatividade, mas um chamado à reflexão sobre nosso modelo de consumo e a urgência de buscar alternativas sustentáveis. Ela nos convida a imaginar um futuro onde o design e a natureza caminham lado a lado, em um ciclo de renovação e respeito pelo planeta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen