Uma carta de demissão tornada pública recentemente acende um alerta sobre uma das mais reverenciadas instituições culturais do mundo. Yuko Kikuchi, que renunciou ao cargo de chefe de programas acadêmicos do Victoria and Albert (V&A) Museum, em Londres, em janeiro, acusa a organização de cultivar uma “cultura de racismo sistêmico”.
A denúncia, detalhada em reportagem do site Hyperallergic, vai além de um desentendimento pontual. O caso de Kikuchi, uma respeitada pesquisadora nipo-britânica, serve como um estudo de caso sobre os desafios que grandes museus ocidentais enfrentam ao tentar conciliar seu legado, muitas vezes colonial, com as demandas contemporâneas por inclusão e revisão histórica. A questão que emerge é se a mudança é cosmética ou estrutural.
O currículo da discórdia
No centro da disputa está o conteúdo acadêmico. Kikuchi, nomeada em 2023, propôs incluir material sobre descolonização no programa de mestrado em história do design, uma parceria com o Royal College of Art (RCA). Segundo seu relato, a proposta enfrentou resistência de outros tutores do V&A, que teriam sugerido adiar o tema para favorecer um “currículo eurocêntrico” no primeiro semestre. A tensão chegou ao ponto de um colega sênior pedir que ela evitasse usar termos como “descolonial” e “pós-colonial” em conversas internas.
A sensação de isolamento era palpável: Kikuchi afirma que era a única pessoa não-branca na equipe sênior. O dado dialoga com o relatório anual do próprio museu, que indica que 65% de seus funcionários (entre os que declararam sua etnia) são brancos. A leitura é que a resistência não era apenas a uma ideia, mas à alteração de uma estrutura de poder e visão de mundo arraigada na instituição.
Um histórico de controvérsias
O episódio com Kikuchi não é um fato isolado. Ele se soma a uma série de outros incidentes que arranham a imagem do V&A. A instituição, dirigida por Tristram Hunt desde 2017, tem sido criticada por sua recusa em restituir completamente os tesouros de Maqdala, saqueados da Etiópia no século XIX, oferecendo em vez disso um empréstimo de longo prazo. O caso é um exemplo clássico do impasse sobre repatriação que assombra museus europeus.
Outras polêmicas incluem a remoção de materiais LGBTQ+ da loja do museu e um incidente em que um grupo de estudantes negros de uma escola de Bristol teria sido seguido e revistado por seguranças. Embora o V&A afirme que está “interrogando ativamente sua herança colonial” e tenha implementado treinamentos de inclusão, a repetição de episódios sugere que as iniciativas podem não ser suficientes para transformar a cultura interna.
A renúncia de uma acadêmica contratada justamente para modernizar a visão do museu levanta uma dúvida fundamental sobre a capacidade de reforma dessas instituições. A saída de Kikuchi, que declarou que o trabalho afetou sua saúde mental, sinaliza que, para alguns, a mudança de dentro para fora ainda é uma barreira intransponível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





