A confiança dos americanos em seu próprio governo está em queda livre, e a desconfiança tornou-se uma questão de identidade partidária. Uma nova pesquisa conduzida pelo The Associated Press-NORC Center for Public Affairs Research e pela USA Facts revela que seis em cada dez americanos têm pouca ou nenhuma confiança nas informações que recebem do governo federal sobre temas cruciais como eleições, política externa e meio ambiente.
O dado, por si só alarmante, aponta para uma crise mais profunda. A desconfiança não é apenas maior do que em 2024, mas também supera os níveis do final do primeiro mandato de Donald Trump. A leitura aqui é que a erosão da credibilidade institucional não é um processo linear, mas um fenômeno acelerado e moldado pela polarização política, onde a percepção da verdade depende de quem ocupa a Casa Branca.
A Partidarização da Credibilidade
O ponto central da pesquisa não é apenas a queda na confiança, mas sua partidarização. O levantamento mostra que a desconfiança dos democratas disparou com o retorno de Trump ao poder, enquanto a dos republicanos, que havia aumentado durante o governo de Joe Biden, agora recua. Por exemplo, 61% dos democratas expressam baixa confiança em informações sobre o orçamento federal, contra 42% dos republicanos. No tema criminalidade, a diferença é ainda maior: 60% de desconfiança democrata contra 32% republicana.
Este padrão sugere que a confiança não é mais depositada em instituições, mas em alinhamentos políticos. A análise se conecta diretamente às ações da atual administração Trump que, desde o início de seu segundo mandato, promoveu um desmonte de partes da burocracia federal, com demissões em massa e o fechamento de agências. Para os opositores, essas ações não são apenas mudanças de gestão, mas ataques diretos à capacidade do Estado de produzir dados e informações neutras, alimentando um ciclo de ceticismo. A única exceção notável a essa divisão partidária é a vacinação: cerca de 60% de democratas, republicanos e independentes desconfiam das recomendações do governo.
Eleições e o Vácuo de Confiança
A consequência mais perigosa dessa crise de confiança se manifesta na integridade do processo democrático. Apenas 34% dos americanos confiam significativamente na certificação dos resultados eleitorais pelo governo — um processo antes rotineiro, agora altamente politizado. Esse número reflete anos de alegações infundadas sobre fraudes e a pressão contínua da administração Trump sobre autoridades eleitorais estaduais.
O vácuo de credibilidade não se restringe ao governo. A pesquisa também aponta para um ceticismo profundo em relação às mensagens das próprias campanhas políticas. Apenas cerca de 25% dos democratas e republicanos acreditam que as mensagens de seus respectivos partidos são “sempre” ou “frequentemente” baseadas em fatos. O resultado é um cenário onde nenhuma fonte de informação — seja governamental, partidária ou midiática — detém autoridade consensual.
A erosão não afeta apenas a capacidade do governo de comunicar políticas públicas, mas mina os alicerces de uma realidade compartilhada, essencial para o funcionamento de qualquer sociedade complexa. O que a pesquisa da AP-NORC expõe não é apenas um público cético, mas um eleitorado para o qual a própria noção de fato objetivo parece ter se dissolvido em meio à batalha política.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





