À primeira vista, o retábulo na Plaza Capuchinas, na Cidade do México, parece uma relíquia barroca de alguma igreja colonial: talha dourada, detalhes intrincados e uma imponência que evoca séculos de devoção. Um olhar mais atento, porém, revela que a estrutura não é de madeira ou ouro, mas de papelão, moldado com a técnica de papel-machê conhecida localmente como cartonería.
A obra é um testamento da sofisticação de uma das mais importantes artes populares do México. Longe de ser um mero artesanato, a cartonería alcança uma escala e um realismo que desafiam as percepções sobre o material. O retábulo da Plaza Capuchinas não é apenas uma curiosidade técnica; ele representa o ápice de uma tradição cultural que transforma o humilde papel em arte monumental.
A alma do papelão
A cartonería é o meio original para a criação dos judas — figuras satíricas queimadas em celebrações — e, mais notavelmente, dos alebrijes, as criaturas fantásticas e coloridas que se tornaram um ícone cultural mexicano. A Cidade do México sedia anualmente a "La Noche de los Alebrijes", um desfile com carros alegóricos e esculturas gigantescas que demonstram a versatilidade da técnica. É nesse ecossistema de mestres cartoneros que a peça da Plaza Capuchinas foi concebida.
Segundo o Atlas Obscura, a autoria mais provável é do ateliê de Martín Rentería, artista falecido em 2023, conhecido por suas obras realistas de temática cristã. O retábulo se encaixaria em seu portfólio, possivelmente como uma peça de prática para seus alunos. O fato de uma obra de exercício atingir tal nível de detalhe e escala diz muito sobre o rigor e a maestria embutidos nesta forma de arte.
Entre o sagrado e o popular
A peça estabelece uma tensão fascinante entre a arte erudita, representada pela iconografia barroca, e a arte popular, materializada no papelão. Ao replicar a opulência de um altar de igreja com um material acessível, a obra efetivamente democratiza uma forma de arte historicamente restrita a espaços sagrados e ao poder eclesiástico. Ela traz o monumental para a praça pública, despido de seu valor material, mas pleno de valor técnico e cultural.
O paralelo com as tradições brasileiras é inevitável. Assim como os bonecos de barro de Mestre Vitalino em Caruaru ou as carrancas do São Francisco, a cartonería mexicana demonstra que a sofisticação artística não reside na nobreza do material, mas na visão e na habilidade do artesão. É a prova de que a cultura popular é capaz de gerar complexidade e beleza em qualquer escala.
O retábulo de papelão é, portanto, mais do que uma réplica. Ele funciona como uma galeria a céu aberto, celebrando uma tradição que é, ao mesmo tempo, ancestral e vibrante. Em um mundo dominado pela produção em massa, o trabalho dos cartoneros reafirma o poder do feito à mão para contar histórias, preservar a memória e construir mundos a partir do quase nada.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Atlas Obscura





