Em uma antiga fábrica de seda da era soviética em Yerevan, capital da Armênia, a artista Lilit Martirosyan transforma materiais como terra e lã em instalações que exploram traumas de guerra e a mercantilização da terra. Mas para ela, o processo criativo depende fundamentalmente do espaço onde ocorre: um ateliê que funciona menos como um escritório e mais como um santuário energético.
Em uma rara descrição de seu processo para a série “A View From the Easel”, da publicação Hyperallergic, Martirosyan articula uma visão do ateliê como um “banco de poupança de energia criativa”. A leitura aqui é que o local de trabalho do artista transcende a função utilitária. Ele se torna um componente ativo da própria obra, um espaço psicológico que precisa ser deliberadamente acessado para que a criação aconteça. É uma disciplina que ecoa os desafios de foco e separação enfrentados por qualquer profissional criativo na era do trabalho fluido.
Um santuário no caos
O ateliê de Martirosyan é um cubo com pé-direito alto e uma grande janela, localizado na parte industrial e ruidosa da cidade. A separação física de sua casa é crucial. “Gosto que meu espaço de vida seja separado do meu espaço artístico”, afirma, destacando a liberdade de ser “tão bagunceira quanto eu quiser”. Essa delimitação permite que o ateliê se torne um receptáculo de energia acumulada, onde a volta ao trabalho é uma “escolha psicológica e consciente de entrar no espaço e interagir com a energia”.
Essa dinâmica entre o caos externo — o barulho da zona fabril, o mercado de ouro no primeiro andar do prédio — e a concentração interna é o que define o local. O espaço não é um refúgio passivo, mas um laboratório ativo. Ele isola a artista das distrações domésticas para que ela possa se conectar com uma energia mais fundamental: a que emana dos próprios materiais com que trabalha.
A matéria como memória
Essa energia se manifesta no trabalho com “materiais táteis que têm sua própria eloquência cultural e filosófica”, como lã e terra. Para seu projeto “Body of Earth”, Martirosyan se dedicou a um processo físico de peneirar, colar e prensar terra para criar esculturas verticais e rasgadas. O objetivo era dar à terra uma “entidade sólida” que confronta o espectador, falando sobre a condição humana através da condição da terra.
O processo, descrito como “muito gratificante”, revela a conexão entre o espaço e a obra. O ateliê é o continente seguro onde a artista pode “lutar” com um material vivo que, segundo ela, “muitas vezes te direciona”. As esculturas de solo rasgado não são apenas um resultado estético; são o testemunho de um diálogo intenso entre a artista, a matéria e a energia canalizada dentro das quatro paredes do estúdio.
Para Martirosyan, o ateliê não é apenas onde a arte é feita. É o cofre onde a energia necessária para fazê-la é guardada, e a arena onde essa energia confronta a matéria bruta da memória e do trauma. Um modelo que, em diferentes escalas, ressoa com a busca de qualquer criador por seu próprio espaço sagrado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





