A busca por clareza e expressão transcende as fronteiras das disciplinas artísticas. Para a escritora Susan Coll, essa jornada se manifestou em uma busca paralela pela maestria tanto na escrita quanto na pintura. Em um período de turbulências pessoais, marcado pelo ninho vazio, um casamento em crise e os desafios de cuidar de um pai idoso, Coll sentiu um impulso avassalador de abandonar o ofício da escrita e dedicar-se à pintura. A motivação não era a aquisição de habilidades técnicas em forma e cor, mas um desejo profundo de se perder na imensidão de uma tonalidade, de mergulhar em um azul perfeito e nadar em suas profundezas. A arte da pintura, em sua essência, oferecia uma fuga das complexidades que obscureciam sua capacidade de escrever, especialmente o romance que estava em andamento e que, diante das disrupções da vida, parecia um projeto cataclísmico.

A busca pela forma e a inspiração em Kalman

O ponto de partida para essa exploração artística e literária foi a descoberta da ilustradora Maira Kalman. Ao se preparar para ministrar um curso de escrita, Coll se deparou com a edição de "The Elements of Style" ilustrada por Kalman. O livro, um guia conciso de gramática e estilo escrito por William Strunk Jr. em 1918 e posteriormente expandido por E.B. White, tornou-se um farol. As ilustrações de Kalman, vibrantes e cheias de vida, como a da bebê Chloë com seus olhos azuis-turquesa e cabelo cor de cenoura, exemplificavam a clareza e a simplicidade que Strunk e White defendiam: use a voz ativa, omita palavras desnecessárias, não exagere. Coll, imersa em suas próprias infelicidades, como descreveu Dorothy Parker sobre o livro, viu nas imagens de Kalman um convite para uma nova forma de expressão. A ideia de pintar a bebê Chloë, o cão Basset Hound de orelhas caídas que parecia falar diretamente com ela, ou qualquer uma das dezenas de ilustrações coloridas e whimsicais, tornou-se um objetivo tangível, uma alternativa à sua frustração com a escrita.

Do pincel à caneta: o aprendizado da visualidade

A tentativa de Coll de aprender a pintar, no entanto, não foi isenta de dificuldades. Ao matricular-se em uma aula de pintura em um centro comunitário, suas primeiras tentativas de retratar uma tigela de peras resultaram em formas bulbosas e disformes, um "shonda", como ela descreve usando o termo iídiche para desgraça. A frustração a levou a procurar um professor particular, que, ao ver o livro de Kalman, brincou: "Ah! Então você quer pintar como Maira Kalman!". A percepção de que seu objetivo era tão ambicioso quanto querer escrever como Virginia Woolf sem reconhecer sua genialidade, a fez repensar a abordagem. A instrução para começar desenhando um lápis, por mais simples que parecesse, revelou-se um desafio. As semanas dedicadas ao desenho do lápis, embora em um ambiente tranquilo e ensolarado, não trouxeram o sucesso esperado. O lápis desenhado parecia mais um objeto adjacente, talvez uma bateria AAA ou um míssil, evidenciando uma falta subjacente de talento. A epifania veio quando a instrutora, após ler algo de Coll, sugeriu que ela poderia ter sido atraída pelas ilustrações de Kalman devido à sua própria escrita. Coll interpretou isso como um sinal para retornar ao seu romance, infundindo-o com a mesma atenção aos detalhes e energia que dedicava ao seu frustrante desenho do lápis. O insight fundamental foi que, assim como na pintura, a escrita eficaz exigia pensar e escrever visualmente.

Implicações para a arte e a vida

A descoberta de Maira Kalman e a jornada de aprendizado na pintura tiveram um impacto profundo na escrita de Susan Coll. Ao retornar ao seu manuscrito, ela passou a conceber cada cena como uma ilustração vívida. Se não podia pintar com um pincel, pintaria com palavras. Essa nova abordagem permitiu que ela visse seus personagens com clareza sem precedentes: a cor de um vestido, o tom exato de um batom, a planta de uma casa, o pelo de um animal. A paixão de Coll por Kalman se intensificou, a ponto de suas ilustrações se tornarem protetores de tela em seus computadores. A celebração do nascimento de suas filhas, com a imagem de uma torta de cereja de Kalman em seu computador, simbolizou um ciclo completo de vida. Essa influência se estende ao seu novo romance, onde uma personagem compartilha sua obsessão por Kalman, carregando consigo o livro "Women Holding Things", uma coleção de pinturas e reflexões sobre mulheres segurando objetos, sejam eles literais ou metafóricos – o lar, a família, as amizades, o trabalho.

O legado da clareza em um mundo digital

Coll continua a ensinar escrita, insistindo na importância de "The Elements of Style", mesmo em uma era dominada por ferramentas de edição de IA. Ela defende a edição ilustrada por Maira Kalman, pois acredita que a clareza e a elegância na escrita se beneficiam imensamente da capacidade de pensar e escrever visualmente. A lição é que, independentemente do meio – seja a tela de um pintor ou a página de um escritor – a busca por uma comunicação eficaz reside na capacidade de transmitir ideias de forma clara, concisa e visualmente envolvente. A arte de pintar e a arte de escrever, embora distintas, compartilham a mesma essência: a busca pela expressão autêntica e pela conexão com o leitor ou espectador.

Com reportagem de Brazil Valley

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