Em 2013, organizei um evento sobre feminismo em Londres. Era uma celebração de um movimento em ressurgimento, com algumas das melhores colunistas da época. A noite, imaginada como calorosa e acolhedora, transformou-se em uma maratona de escrutínio online. Detratores, munidos de uma posição prévia de desaprovação, buscavam justificativas para sua insatisfação. Mesmo com um painel racialmente diverso e a inclusão de uma mulher transgênero, e com todos os palestrantes dispensando cachês, o preço simbólico de £5 para cobrir o aluguel do espaço foi o suficiente para desencadear acusações de exploração capitalista. Essa experiência, embora menos explosiva que o recente episódio no Last Ditch Bar, em Greenfield, Massachusetts, já prenunciava a dinâmica que viria a dominar o ativismo digital.
O Incêndio no Last Ditch Bar
A polêmica que irrompeu no Last Ditch Bar, um refúgio para a comunidade LGBTQIA+ em Greenfield, Massachusetts, espelha e amplifica as tensões que a autora presenciou em seu evento de 2013. A decisão do bar, enfrentando dívidas consideráveis e com a proprietária dormindo em seu caminhão, de adotar uma política de noites sem máscara nos sábados, desencadeou uma avalanche de críticas. Fundamentado em dados locais que indicavam ausência de casos de COVID-19, o anúncio foi interpretado por alguns como um ato de “desabilitação em massa” e comparado a um “fascismo”. As acusações incluíam insensibilidade à comunidade queer e até flertes com a eugenia, num contexto onde a identidade racial e a afiliação política se tornaram testes de pureza ideológica.
A Psicologia do Confronto Progressista
A autora argumenta que o fenômeno observado no bar, e em seu próprio evento, é uma manifestação do que pode ser chamado de “purismo de esquerda” ou “moralismo de esquerda”. Essa vertente do ativismo, segundo ela, prioriza a demonstração de não-participação na opressão em detrimento da redução da opressão em si. Críticas como as dirigidas ao Last Ditch Bar, que exigem adesão a princípios rígidos e imutáveis, transformam o que poderia ser um espaço de comunidade em um campo minado. A autora descreve a dinâmica como um sadismo disfarçado de ativismo, onde o alvo é esperado a absorver críticas intermináveis, com qualquer sinal de desconforto sendo interpretado como “centrar a própria dor”, um eco da obra “Fragilidade Branca” de Robin DiAngelo. A exigência de “práxis revolucionária” e a constante declaração de pronome, mesmo em contextos informais como um bar, exemplificam essa busca por uma ortodoxia ideológica.
A Pandemia como Catalisador
A pandemia de COVID-19 serviu como um catalisador para exacerbar essas tensões. O que começou como medidas de saúde pública rapidamente se codificou politicamente, tornando-se um símbolo de identidade. Para alguns à esquerda, o uso contínuo de máscaras tornou-se um ato de resistência contra um sistema de saúde percebido como predatório e indiferente aos deficientes. Para outros, a flexibilização das medidas, mesmo em locais com baixa incidência do vírus, era vista como um sinal de retorno à normalidade e à liberdade. Essa dicotomia explica, em parte, a ferocidade do debate, onde a discussão sobre saúde pública se entrelaça com críticas sociais mais amplas e ansiedades pós-pandêmicas, como o aumento de taxas de depressão e isolamento social.
Comunidade ou Campo de Batalha?
O episódio do Last Ditch Bar levanta questões pertinentes sobre a natureza da comunidade e do ativismo na era digital. A autora sugere que a capacidade de organização online, embora poderosa, também abriu portas para indivíduos com tendências narcisistas ou sociopatas se apresentarem como vozes da justiça social. A linha tênue entre o apoio genuíno a grupos marginalizados e a exploração de suas causas para ganho pessoal ou ideológico é cada vez mais difícil de discernir. A autora, ao revisitar sua própria experiência e ao analisar o caso do bar, convida à reflexão sobre quando o ativismo se torna um fim em si mesmo, um espetáculo de pureza ideológica que, paradoxalmente, pode afastar aqueles que busca representar e proteger. A questão que permanece é se esses espaços, outrora refúgios, podem sobreviver à sua própria ortodoxia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas





