“Incrédula. Sério?” A reação de Kim Sajet, hoje diretora do Museu de Arte de Milwaukee, não foi apenas de surpresa, mas de um cansaço familiar. Ao assistir de longe sua ex-colega do Smithsonian, Anthea M. Hartig, ser submetida a um interrogatório hostil no Congresso americano, Sajet viu um roteiro se repetir. “Eu pude ver que se tornaria uma verdadeira caça às bruxas”, afirmou em entrevista ao The New York Times. Há quase um ano, ela mesma deixou a direção da National Portrait Gallery após o então presidente Donald Trump anunciar a intenção de demiti-la. A trincheira mudou, mas a guerra cultural é a mesma.

A História sem Nuances

A crítica de Sajet mira o cerne do problema: a natureza das perguntas feitas a Hartig, diretora do Museu Nacional de História Americana. Eram questões de “sim” ou “não”, que buscam sentenças, não entendimento. “Não seria adorável se a história fosse assim, preta e branca? Sempre há nuances”, disse Sajet. “Mas eles não querem ouvir o contexto. Eles querem a frase de efeito, querem marcar um ponto.” Essa tática, segundo observadores como o professor Steven Conn, da Miami University, carrega um “veneno incomum, direcionado pessoalmente”. A audiência não era sobre história, mas sobre a construção de um inimigo, transformando a cadeira de direção de um museu em um alvo político.

Repórteres, não Juízes

Em sua defesa, Sajet articula o que deveria ser o mandato óbvio de uma instituição de memória. “O Museu de História Americana não faz a história — eles estão apenas reportando o que aconteceu”, afirmou. “Era o que eu fazia como diretora da Portrait Gallery. Não dizíamos se as ações de fulano ou sicrano eram boas ou más. Apenas dizíamos: ‘Isto foi o que eles fizeram’.” É uma distinção fundamental em uma era que exige que todas as instituições, da imprensa à academia e aos museus, escolham um lado. O trabalho de preservar e apresentar fatos, com suas complexidades e contradições, é confundido com endosso ou ataque.

Depois da audiência, Sajet enviou uma mensagem de solidariedade a Hartig. Seu comentário final ao Times carrega o peso da experiência: “Ter que se sentar para um testemunho no Congresso não é o que você espera quando se candidata ao cargo.” A frase deixa no ar uma questão implícita: o que se espera, então, quando a curadoria da memória de uma nação se torna uma frente de batalha? A solidariedade, talvez, seja a única resposta que não exige um “sim” ou “não”.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews