Em análise recente publicada pelo podcast The Intelligence, da The Economist, o editor de negócios Tom Lee-Devlin e o apresentador Jason Palmer traçam o diagnóstico de uma estagnação estrutural na McKinsey. A consultoria, que completará 100 anos no próximo ano, registrou um crescimento de receita de apenas cerca de 2% no último ano, após ter dobrado de tamanho entre 2012 e 2024. O freio na expansão foi acompanhado por uma redução significativa no quadro de funcionários, com o corte de aproximadamente 5.000 vagas desde o final de 2023. O cenário contrasta com o ambiente de mudanças tecnológicas globais que, historicamente, impulsiona a demanda por direcionamento estratégico corporativo.

A erosão da liderança tradicional

A desaceleração da McKinsey ocorre em paralelo ao avanço agressivo de seu principal rival, o Boston Consulting Group (BCG). Em 2012, a McKinsey era aproximadamente duas vezes maior que o BCG. No último ano, essa vantagem foi reduzida para apenas um quinto a mais de receita. Segundo a projeção da The Economist, se a trajetória atual for mantida, o BCG ultrapassará a McKinsey em faturamento já no ano seguinte ao próximo.

A origem do desgaste remonta a uma mudança na própria filosofia da firma. Sob a liderança de Marvin Bower, nas décadas de 1950 e 1960, a McKinsey operava sob o princípio de que seus serviços deveriam ser procurados, não vendidos. Contudo, a última década foi marcada por uma expansão deliberada para além da estratégia pura. Entre 2013 e 2023, a companhia adquiriu pelo menos 16 consultorias de tecnologia, passando a atuar na implementação de conselhos em áreas como operações, suprimentos e digital. O BCG adotou uma estratégia semelhante de expansão de portfólio, mas, segundo a análise, foi mais eficaz na alocação e retenção dos especialistas necessários para sustentar a execução tecnológica.

A invasão do software no modelo de serviços

Além da competição direta, o setor enfrenta o avanço de empresas de tecnologia que passaram a oferecer serviços análogos à consultoria. A Palantir é apontada como o principal expoente dessa frente. A empresa de software, cuja receita cresceu quase 50% no segundo trimestre deste ano na comparação anual e que já superou o valor de mercado de gigantes como Chevron e Coca-Cola, adota a prática de enviar engenheiros próprios para atuar diretamente nos clientes, ajudando-os a integrar dados em modelos de inteligência artificial. Até mesmo a OpenAI começou a estruturar serviços semelhantes de consultoria.

Essa dinâmica expõe a vulnerabilidade do modelo de negócios das consultorias estratégicas tradicionais, especialmente porque os CEOs estão focados em inteligência artificial, mas frequentemente frustrados com os desafios de torná-la produtiva. Os projetos do setor historicamente combinam reflexão intelectual profunda com um volume maciço de trabalho operacional — como análise de dados e elaboração de apresentações —, geralmente executado por profissionais em início de carreira. Com o avanço da IA, a capacidade de automatizar essa camada de execução ameaça comprimir as taxas cobradas pelas firmas. Embora a McKinsey e seus pares confiem em bibliotecas de propriedade intelectual exclusivas para treinar seus próprios algoritmos e defender suas margens, a velocidade de evolução dos modelos coloca essa barreira de proteção em xeque.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de um modelo de faturamento baseado em horas de trabalho humano para um modelo guiado por eficiência de software tem precedentes em outras indústrias de serviços profissionais, como a advocacia corporativa e a auditoria, que precisaram reestruturar suas pirâmides hierárquicas. O resultado desse cerco tecnológico pode forçar a McKinsey a recuar para o seu papel original de conselheiro estratégico estrito — um núcleo de negócios que, segundo os editores, ainda cresce de forma saudável. No entanto, a dependência histórica de exércitos de analistas juniores para sustentar as margens indica que a segunda centúria da firma exigirá uma reinvenção de sua estrutura de custos.

Fonte · Brazil Valley | Business