A imagem de uma zona eleitoral submersa, com urnas eletrônicas à deriva, deixou de pertencer ao roteiro de um filme-catástrofe. Tornou-se um risco real e presente no cálculo da maior operação logística da República: a eleição. O que antes era uma preocupação restrita a engenheiros de Defesa Civil agora ocupa o centro do planejamento da Justiça Eleitoral.
É neste cenário, onde a tragédia climática do Rio Grande do Sul serve como um prólogo sombrio, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) age. A publicação de uma portaria que cria a “Sala Nacional de Situação Climática” é a formalização de um novo paradigma. Assinada pelo presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, a medida é menos uma inovação e mais uma rendição à nova realidade: a infraestrutura da democracia brasileira é vulnerável ao clima.
A burocracia encontra a entropia
Por décadas, as ameaças ao processo eleitoral foram de natureza política, cibernética ou criminal. O foco estava em garantir a segurança contra fraudes, ataques de hackers e a lisura da competição. A nova Sala de Situação desloca o eixo do risco para o mundo físico e caótico. Suas atribuições revelam a dimensão do desafio: monitorar previsões meteorológicas, mapear zonas críticas com dados do Inpe e do Cemaden, e avaliar riscos logísticos para urnas, transporte, energia e telecomunicações. É a máquina estatal tentando antecipar e gerenciar a entropia.
A força-tarefa não é apenas um ato burocrático. Ao convocar especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o TSE admite que a expertise jurídica é insuficiente. A resiliência eleitoral passou a ser um problema de engenharia, geologia e meteorologia. Trata-se de construir protocolos de contingência não para um adversário político, mas para a própria natureza.
A iniciativa é um atestado de pragmatismo. Mas também é o reconhecimento tácito de que a estabilidade do contrato social agora depende, em parte, da precisão dos boletins do tempo. A questão que fica não é se o TSE está preparado para a próxima enchente, mas quantas outras “salas de situação” serão necessárias para manter de pé as demais estruturas da vida civil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





