A disparidade entre a sofisticação do cibercrime e a maturidade de segurança das empresas brasileiras está se tornando um passivo estratégico para o país. Enquanto os ataques de ransomware cresceram mais de 50% no último ano, a cultura corporativa permanece predominantemente reativa, tratando a segurança como uma prioridade apenas após a ocorrência de um incidente. A análise é de Emerson Wendt, delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que aponta a necessidade urgente de o Brasil “virar a chave” para uma postura preventiva.

O diagnóstico, apresentado durante o evento Mind The Sec, revela uma transformação no ecossistema do crime digital. Nos últimos anos, o setor deixou de ser um domínio de atores isolados para se tornar um campo de atuação de organizações criminosas estruturadas, com capital para financiar operações complexas. Segundo Wendt, esses grupos exploram não apenas vulnerabilidades de sistemas, mas principalmente as de comportamento humano. “O enfoque do criminoso é na pessoa muitas vezes, não necessariamente na tecnologia”, afirmou, destacando que o usuário se tornou parte da superfície de ataque.

Essa profissionalização do crime exige uma resposta que transcenda a mera aquisição de ferramentas tecnológicas. A solução passa por uma camada de educação e governança. A Política Nacional de Educação Digital, sancionada em 2023, já aponta o caminho do letramento digital, mas o desafio, segundo o delegado, é medir a eficácia dessas iniciativas. Para as empresas, a lógica é a mesma: é preciso estabelecer uma governança que integre tecnologia, processos e, fundamentalmente, pessoas.

A questão central não é a falta de soluções, mas a de mentalidade. Enquanto a segurança for encarada como um centro de custo ativado por crises, e não como uma função estratégica contínua, a vantagem permanecerá com os atacantes. Para eles, o cibercrime é um negócio lucrativo e em constante inovação. Para as empresas brasileiras, a defesa ainda é, em grande parte, uma reação custosa.

Source · TIInside