Na Califórnia, a batalha sobre a taxação de bilionários ganhou um protagonista irônico. Ned Wigglesworth, um consultor político que há duas décadas denunciava o que chamava de "clube de meninos bilionários da política", hoje lidera a campanha para derrotar a Proposição 40 — um imposto único de 5% sobre fortunas acima de US$ 1 bilhão. A campanha é financiada por cifras astronômicas, incluindo mais de US$ 100 milhões doados apenas por Sergey Brin, cofundador do Google.
A trajetória de Wigglesworth, conforme detalhado em reportagem da Fortune, encapsula o dilema californiano. O consultor que antes alertava que os ricos "não gastam dinheiro por um senso benevolente de melhorar o bem público" agora orquestra uma máquina de lobby para defender os interesses de seus novos clientes, expondo a fluidez ideológica do poder em Sacramento, a capital do estado.
A engrenagem de Sacramento
A carreira de Wigglesworth é um estudo de caso sobre o pragmatismo do universo do lobby político. Descrito como um "sussurrador de bilionários" por ex-colegas, sua transição de reformista a estrategista dos super-ricos não é uma anomalia, mas parte da engrenagem de poder local. Em 2007, o próprio Wigglesworth escreveu que os ricos "doam porque recebem de volta". Hoje, ele está do outro lado da equação, garantindo que o investimento de seus clientes traga o retorno esperado: a anulação de um imposto bilionário.
O movimento contra a Proposição 40, chamado "Building a Better California", já reservou US$ 87 milhões em publicidade antes mesmo da votação. A ação ilustra perfeitamente a tese original de Wigglesworth: interesses especiais com muito em jogo estão dispostos a gastar o que for preciso para "defender seu território ou melhorar seus resultados financeiros".
O dilema do ouro
O embate vai além da biografia de um consultor, refletindo a tensão central da economia californiana: um estado que concentra uma riqueza extraordinária e, ao mesmo tempo, nutre um apetite político para taxá-la. A Proposição 40 poderia gerar cerca de US$ 100 bilhões para a saúde pública, mas o custo para os bilionários seria imenso — Sergey Brin, por exemplo, teria de pagar US$ 13 bilhões. O argumento contrário, ecoado até pelo governador Gavin Newsom, é o risco de uma fuga de capital que danificaria a base tributária do estado.
Quase metade da receita de imposto de renda pessoal da Califórnia vem do 1% mais rico. A ameaça, explícita ou não, é que esse grupo possa simplesmente se mudar, como Brin e Larry Page já fizeram ao comprar imóveis em Miami. A questão que fica para os eleitores é se o estado pode se dar ao luxo de não taxar essa riqueza — ou de afugentá-la.
A batalha na Califórnia, com seus valores estratosféricos e personagens complexos, serve como um laboratório para uma questão global. No fim, a disputa testa a tese que o próprio Wigglesworth defendia: até que ponto o dinheiro consegue, de fato, comprar o resultado político desejado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





