A Espanha está se movendo para colocar ordem na casa antes que a festa da inteligência artificial saia do controle. O governo do presidente Pedro Sánchez lançou uma consulta pública para um novo e robusto marco regulatório para data centers, a espinha dorsal física da economia digital. A lógica, articulada por Sánchez em um artigo na Bloomberg, é simples: agir proativamente é mais eficaz e menos custoso do que intervir reativamente.

O movimento espanhol reflete uma tensão crescente em nível global. A economia digital, embora percebida como imaterial, depende de uma infraestrutura massiva que consome terra, energia e água em escala crescente. Com a demanda por computação impulsionada pela IA, a questão deixou de ser se os data centers são necessários, mas como seu crescimento será gerenciado. A Espanha, que já vê o interesse de investidores superar em várias vezes sua meta de capacidade para 2030, optou por não esperar os problemas aparecerem.

Bytes, não watts

A proposta do governo espanhol é ambiciosa e parte de um princípio claro: o acesso à rede elétrica é um ativo estratégico e escasso. O projeto de decreto real exigirá que os data centers garantam que ao menos 80% de seu consumo energético horário seja lastreado por nova capacidade de geração renovável. O objetivo é evitar que a nova demanda canibalize a rede existente ou force a dependência de combustíveis fósseis.

Além da energia, o marco regulatório mira a eficiência hídrica e a transparência, exigindo a divulgação de indicadores de desempenho para desincentivar o desperdício. A regulação se baseia em experiências internacionais, como na Irlanda e nos Estados Unidos, onde a expansão desordenada gerou tensões sociais, como o aumento no preço de imóveis e o efeito de "ilha de calor de dados", que eleva a temperatura em áreas próximas. A mensagem de Sánchez é que o objetivo deve ser "comerciar bytes, não watts".

O debate inaugurado pela Espanha não é um freio à inovação, mas uma tentativa de garantir que ela seja sustentável. Ao tratar os data centers como ativos estratégicos que precisam operar dentro de balizas ambientais e sociais claras, o país oferece um modelo para outras nações, incluindo o Brasil, que também buscam se posicionar como hubs digitais. A era da expansão a qualquer custo parece estar chegando ao fim; a nova fronteira é o crescimento qualificado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España