A nova agência reguladora de telecomunicações do México, a CRT, deve iniciar suas operações em 2027 com um orçamento significativamente enxuto. A proposta do governo é destinar 354,5 milhões de pesos ao órgão, um corte de 29% em relação ao último orçamento de seu antecessor, o extinto IFT. A informação foi divulgada pelo portal mexicano Expansión.

A medida reflete uma diretriz de austeridade fiscal do governo, mas acende um alerta no setor. Com a responsabilidade de orquestrar a próxima licitação de espectro para o 5G — um pilar para a economia digital —, a capacidade de execução da CRT com recursos limitados está sob escrutínio. O movimento sugere uma tensão entre a ambição tecnológica do país e o rigor fiscal imposto à sua máquina pública.

Um Mandato Amplo, Recursos Escassos

A análise da proposta orçamentária revela um quadro ainda mais restritivo. Cerca de 95% dos recursos seriam alocados para despesas com pessoal, deixando uma margem mínima para gastos operacionais, fiscalização e estudos técnicos. Para um órgão que supervisiona mercados complexos como telefonia, internet, rádio, TV e serviços de satélite, a verba parece desproporcional ao tamanho do desafio.

O ponto mais crítico é a licitação do 5G. Um processo dessa magnitude exige capacidade técnica para desenhar regras, avaliar propostas e garantir um leilão competitivo que maximize os benefícios para o país, não apenas a arrecadação. Um orçamento apertado pode comprometer a qualidade técnica da agência, resultando em atrasos ou em um modelo de leilão que não atenda às necessidades de um mercado em rápida transformação.

O Custo Político da Austeridade

A política de austeridade não é apenas uma projeção futura. Segundo a reportagem, a CRT já enfrentou dificuldades financeiras em seus primeiros meses de operação, em 2025, com relatos de atrasos no pagamento de funcionários. O cenário indica que a restrição orçamentária é uma realidade operacional desde o início, e não apenas um plano para o futuro.

Um regulador enfraquecido pode ter dificuldades em arbitrar disputas de mercado e garantir a competição em um setor historicamente concentrado. Para um país que busca atrair investimentos em infraestrutura digital, a mensagem é ambígua. A aposta em um Estado enxuto pode, no limite, criar gargalos que inibem o próprio desenvolvimento econômico que a digitalização promete destravar.

O orçamento proposto para a CRT não é, portanto, apenas um número. É uma declaração sobre as prioridades do Estado mexicano. A questão que permanece é se a ambição de liderar a corrida do 5G na América Latina é compatível com um regulador operando com o cinto tão apertado. O mercado observará atentamente para ver se um órgão enxuto pode, de fato, ser um órgão eficaz.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX