A promessa de Donald Trump de distribuir um "dividendo" de US$ 5 mil a cada cidadão adulto americano, caso o Partido Republicano vença as eleições legislativas, carrega um custo estimado em US$ 1,15 trilhão. A cifra, que não possui uma fonte de financiamento clara, seria adicionada a um balanço federal já pressionado por um déficit anual de quase US$ 2 trilhões.
A estimativa é de Kent Smetters, diretor do Penn Wharton Budget Model e um dos mais respeitados economistas fiscais dos EUA, em análise reportada pela revista Fortune. O cálculo de US$ 1,15 trilhão já considera uma versão reduzida da proposta, que excluiria famílias com renda acima de US$ 400 mil anuais. Sem qualquer restrição, o custo total chegaria a US$ 1,35 trilhão. Em ambos os cenários, o financiamento viria da única fonte disponível para gastos dessa magnitude em Washington: mais dívida.
Uma promessa sem lastro
A proposta aterrissa em um cenário fiscal já deteriorado. A dívida nacional americana ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões recentemente, e o serviço dessa dívida consumiu cerca de US$ 1,05 trilhão nos últimos onze meses. Isso significa que o pagamento único proposto por Trump custaria quase o mesmo que um ano inteiro de juros sobre o dinheiro que o governo já tomou emprestado.
A leitura aqui é que a retórica política ignora a matemática fiscal. A administração Trump já sugeriu repetidamente que receitas de tarifas poderiam bancar programas do gênero, mas os números não fecham. As projeções mais otimistas de arrecadação tarifária, antes de decisões judiciais que as invalidaram, mal chegavam a US$ 350 bilhões anuais — uma fração do custo do "dividendo" e um recurso que também foi prometido para redução de déficit e gastos com defesa.
O fantasma da inflação
Além do impacto fiscal, a modelagem de Smetters aponta para um efeito mais imediato: a aceleração da inflação. O estudo estima que cerca de US$ 400 bilhões do montante distribuído seriam gastos nos dois primeiros trimestres, injetando uma demanda que adicionaria entre 0,3 e 0,5 ponto percentual à inflação ao longo de um ano. Para um Federal Reserve que luta para controlar os preços, seria um complicador relevante.
O movimento sugere uma estratégia política de apelo direto ao eleitor, mas com baixa probabilidade de se tornar política pública. A proposta exigiria aprovação do Congresso, onde mesmo lideranças republicanas já expressaram preferência por usar eventuais receitas extras para abater o déficit. A ausência de detalhes sobre o mecanismo de pagamento ou o critério de elegibilidade reforça a percepção de que se trata de um balão de ensaio, não de um plano estruturado.
Seja qual for seu destino, a análise da proposta expõe a desconexão entre promessas de campanha e a realidade orçamentária. O "dividendo" de Trump, despido da retórica, não é uma distribuição de lucros, mas um passivo a ser inscrito no já sobrecarregado balanço da dívida do país.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





