Num dia ensolarado de junho de 2018, uma mulher em trajes tradicionais nativo-americanos lançou uma grande coroa de flores no Oceano Atlântico. O círculo de botões flutuou por um instante antes de ser levado pelas ondas azuis das Bermudas. O silêncio da centena de pessoas reunidas era um tributo à jornada de seus ancestrais, indígenas da Nova Inglaterra escravizados e enviados para a ilha quase quatrocentos anos antes. A cerimônia, que começou solene, transformou-se em um vibrante powwow intertribal de dois dias, reunindo descendentes dos povos Narragansett e Wampanoag com nativos das Bermudas na Ilha de St. David.

Este encontro, que ocorre desde 2002, é mais do que uma celebração cultural. Ele materializa a redescoberta de uma história sistematicamente apagada dos registros oficiais: a escravidão em larga escala de povos indígenas como pilar da colonização dos Estados Unidos. Em seu livro Stealing America, o historiador Linford D. Fisher argumenta que este não é um capítulo secundário, mas “o rio central que conecta todos os outros riachos” da história americana. A tese é sustentada por números que desafiam a narrativa convencional: estima-se que até 600 mil nativos foram escravizados no território que hoje compõe os EUA, um volume semelhante aos 530 mil africanos transportados para a mesma região.

Uma história de apagamento

A narrativa padrão da escravidão nos Estados Unidos é notavelmente seletiva. Ela começa com a chegada dos ingleses em Jamestown, menciona o uso inicial de servos brancos por contrato e rapidamente salta para a importação de africanos a partir de 1619, culminando na Guerra Civil. Esta versão, segundo a análise de Fisher, é flagrantemente incompleta. Ela ignora um processo que se estendeu por cinco séculos, de 1492 até o final do século XX, e que foi crucial para a expansão colonial.

O conceito-chave proposto pelo autor é o de um “duplo roubo”. A escravização de nativos não apenas fornecia mão de obra, mas também, e de forma simultânea, esvaziava as terras cobiçadas pelos colonos. Capturar e vender membros de uma comunidade desestabilizava famílias e nações inteiras, minando sua capacidade demográfica e militar de resistir à expropriação de seus territórios. Era uma estratégia de colonização duplamente eficaz, que provia capital humano e capital fundiário em uma única ação. Este ciclo de violência não se limitou ao período colonial; continuou sob outras formas, como a remoção forçada de crianças para internatos e programas de adoção, que só foram formalmente restringidos por lei em 1978.

As raízes do capital

O duplo roubo não foi apenas uma tragédia humana; foi o motor econômico que permitiu a ascensão dos Estados Unidos como potência. A força financeira e a expansão geográfica das colônias, e mais tarde da nação, emergiram diretamente de terras roubadas e trabalho escravizado — e os povos indígenas foram forçados a fornecer ambos. Sem as terras férteis dos nativos, não haveria o “reino do algodão” no século XIX nem o capitalismo agrário que enriqueceu os primeiros proprietários. Sem as florestas, não haveria madeira para construir os navios que transformaram o país em uma potência comercial global.

A própria terra tornou-se a commodity fundamental, a base da riqueza e do poder político que, por séculos, garantiu o direito de voto a homens brancos. Fisher é categórico: sem este processo, não haveria o sonho americano da casa própria, impulsionado pela corrida pela posse de terras, nem os parques nacionais — muitos dos quais permanecem sagrados para os povos originários. Centros financeiros e culturais como Nova York, Miami e Chicago foram erguidos sobre essa base. A história é complexa e inclui alianças inesperadas, com algumas nações indígenas participando do comércio de escravos de outros povos como estratégia de sobrevivência frente à invasão europeia.

Compreender essa história não diminui a brutalidade da escravidão africana, mas a complementa, revelando um trauma multidirecional na fundação da América. A resiliência dos descendentes, que se reúnem hoje em Bermudas para honrar suas conexões ancestrais, é um testemunho de que, embora a história possa ser roubada e apagada dos livros, ela sobrevive na memória e nos laços de parentesco. A coroa de flores, levada pela correnteza para o mar aberto, simboliza tanto a perda quanto uma jornada de reencontro que continua a desafiar o silêncio imposto por séculos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub