Em debate recente sobre o declínio do ensino superior, a filósofa Jennifer Frey rejeita a justificativa contemporânea mais popular para a sobrevivência das humanidades. Enquanto líderes do setor de tecnologia e reitores argumentam que a inteligência artificial torna as chamadas "soft skills" cruciais para o futuro do trabalho, Frey classifica essa defesa como um erro fundamental. Para a acadêmica, instrumentalizar a educação liberal como mero treinamento corporativo destrói a essência da disciplina. O propósito de ler os clássicos não é formar profissionais mais adaptáveis para atuar em startups ou na imprensa, mas engajar o indivíduo em um projeto de autoconhecimento. A análise de Frey reposiciona a crise das humanidades: o declínio não ocorre por falta de interesse dos alunos, mas por uma estrutura institucional que enxerga a formação acadêmica exclusivamente sob a ótica da utilidade financeira e da eficiência de mercado.

A Lógica Utilitarista contra a Educação Liberal

A convite da Universidade de Tulsa, Frey liderou a criação de um programa de Honors College baseado na leitura de grandes obras — de Homero a Hannah Arendt, passando por Platão, Aristóteles, Agostinho e Maquiavel. O experimento atraiu entre 26% e 28% dos calouros a cada ano, majoritariamente estudantes de áreas exatas (STEM) que cursavam o currículo humanista em paralelo às suas graduações. A aceitação dos alunos contrariou a tese de que não há demanda para o rigor intelectual clássico entre a nova geração.

No entanto, o programa foi desidratado após uma mudança na reitoria, sofrendo um corte de 92% em seu orçamento e a demissão dos professores contratados. Frey atribui o desmonte não à rejeição estudantil, mas a uma pressão bipartidária por alinhamento da universidade à força de trabalho. Ela cita diretrizes de governos estaduais, como decretos recentes em Oklahoma que exigem revisões acadêmicas baseadas em salários futuros e sugerem diplomas reduzidos para 90 créditos, eliminando disciplinas de formação geral em favor de um treinamento estritamente vocacional.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição do modelo universitário de um espaço de exploração intelectual para um centro de certificação profissional reflete tensões econômicas mais amplas. O aumento expressivo dos custos de matrícula nas últimas décadas forçou instituições e famílias a priorizarem o retorno financeiro imediato, sufocando departamentos que não conseguem provar uma correlação direta com a empregabilidade no curto prazo.

A Terceirização do Pensamento

Frey sustenta que a educação liberal exige o reconhecimento de hierarquias culturais. Em sua visão, uma obra de William Shakespeare é objetivamente superior a romances comerciais de autores como John Grisham ou Dan Brown, pois a linguagem e a profundidade do dramaturgo inglês demandam um nível de reflexão contínua sobre verdade, beleza e bondade. Esse grau de exigência intelectual é o que justifica o estudo de grandes textos como um fim em si mesmo, um conceito que remonta à visão de Aristóteles de que o objetivo da educação é o lazer — não no sentido de ociosidade, mas como o espaço reservado para cultivar as capacidades humanas mais elevadas.

É nesse ponto que a inteligência artificial entra não como salvadora mercadológica, mas como um clarificador existencial. Frey argumenta que a ascensão dos algoritmos evidencia o que está em jogo caso a sociedade abandone a reflexão humanista. As máquinas não devem definir os objetivos e os propósitos da vida humana. Ao delegar a capacidade de pensar e escrever para a inteligência artificial, o indivíduo terceiriza sua própria humanidade, reduzindo-se a um feixe de desejos condicionados por agentes externos e perdendo sua liberdade moral.

A defesa do rigor humanista apresentada por Frey sugere que a resposta à automação não está em tentar competir com as máquinas em eficiência ou em adaptar a filosofia para servir ao mundo corporativo. O valor da educação liberal reside exatamente em sua recusa em ser apenas útil. Se a inteligência artificial assumir a execução técnica e analítica do trabalho, a fronteira inegociável que resta ao ser humano é a sua capacidade de deliberação sobre os próprios fins — competência que não se adquire em treinamentos de produtividade, mas no confronto direto com as questões fundamentais da tradição intelectual.

Fonte · Brazil Valley | Society