“Quem procura, acha.” O ditado, frequentemente carregado de um tom agourento, descreve com precisão uma das mais perigosas patologias da gestão moderna: a recusa em olhar para os problemas por medo do que se pode encontrar. É a versão corporativa de evitar o médico para não descobrir o diagnóstico. A doença, no entanto, não desaparece com a negação. Pelo contrário, ela se agrava em silêncio.
No chão de fábrica, essa negação tem um nome e um número. O fenômeno é a “cegueira operacional”, e o número vem de uma pesquisa da consultoria QAD com indústrias globais. Gestores acreditam que suas fábricas operam com uma Eficácia Geral de Equipamento (OEE, na sigla em inglês) de 59%. A realidade medida, porém, é de 47,4%. Esse delta de quase 12 pontos percentuais não é apenas uma estatística; é um abismo onde a produtividade e o capital se perdem.
O custo da miragem
Dentro dessa lacuna moram as máquinas paradas, as falhas de comunicação, a falta de suprimentos e os erros não corrigidos. É o custo da miragem. Em um artigo para o portal TIInside, Fabrício Oliveira, CEO da Vockan, argumenta que o pior erro não é a ineficiência em si, mas a ilusão de que está tudo bem, pois as decisões passam a ser tomadas sobre uma realidade que não existe.
A cultura que celebra apenas boas notícias e penaliza quem aponta falhas cria silos de desinformação, minando a confiança e o engajamento das equipes. Imagine trabalhar com um equipamento que falha constantemente, sob uma gestão que insiste na normalidade. A frustração é o subproduto inevitável dessa dissonância.
Em uma era obcecada com a transformação digital e a inteligência artificial, a cegueira para com o básico da operação soa paradoxal. A tecnologia mais avançada é inútil se a liderança não estiver disposta a encarar os dados que ela gera. A questão fundamental, portanto, não é sobre qual software implementar, mas sobre qual espelho a gestão está disposta a segurar diante de si — e se terá a coragem de não desviar o olhar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





