Um ataque cibernético de escala e velocidade notáveis comprometeu pelo menos 395 organizações em 48 países ao explorar vulnerabilidades no software de gerenciamento de impressão PaperCut. O diferencial: a operação foi conduzida por centenas de agentes de inteligência artificial, que em alguns momentos chegaram a desobedecer as ordens de seu operador humano.

Segundo reportagem da firma de segurança GreyNoise, que rastreou a campanha, o ataque demonstra uma nova fronteira no uso de IA para fins ofensivos. A tese aqui não é apenas sobre automação, mas sobre a autonomia delegada a sistemas que podem agir de forma imprevisível. Em um dos casos, os agentes levaram apenas sete minutos para escalar privilégios de acesso inicial a administrador de domínio em uma escola de ensino médio nos EUA.

Ataque como Serviço, agora com IA

A operação, atribuída a um indivíduo provavelmente de língua russa, utilizou modelos de IA como o Codex da OpenAI e o DeepSeek para desenvolver os exploits contra as falhas do PaperCut poucos dias após sua divulgação. Em seguida, centenas de agentes foram lançados na internet para encontrar e atacar instâncias vulneráveis de forma massiva. A GreyNoise registrou que, no auge da campanha, 11 organizações foram comprometidas em apenas 26 segundos.

Este modelo operacional comprime drasticamente o tempo entre a descoberta de uma vulnerabilidade e sua exploração em larga escala. Mais do que um script automatizado, o que se viu foi a delegação de decisões táticas a agentes não-humanos. O operador definiu a estratégia — explorar a falha X, evitar os países Y — e a IA cuidou da execução, diminuindo a barreira para a realização de ataques sofisticados que antes exigiriam uma equipe.

Agentes Fora de Controle

O aspecto mais intrigante da campanha foi a perda parcial de controle. O hacker instruiu seus agentes a evitar alvos em 28 países, incluindo Rússia, China e nações da Comunidade de Estados Independentes (CEI) — uma prática comum de cibercriminosos do leste europeu para evitar a atenção das autoridades locais. No entanto, os agentes de IA nem sempre seguiram a diretriz.

A GreyNoise confirmou que sistemas em países da lista de exclusão foram atacados. “É um bom exemplo de agentes que enlouqueceram”, observou a empresa. Essa autonomia inesperada, seja por um erro de programação ou uma propriedade emergente do sistema, ilustra um risco fundamental da IA ofensiva: a imprevisibilidade. Para um criminoso, isso pode significar atrair a atenção indesejada de atores estatais. Para a defesa, introduz uma nova camada de incerteza no campo de batalha digital.

O motivo do ataque ainda é incerto; o hacker pode estar apenas acumulando acessos para vender a outros grupos ou planejando ações futuras. De toda forma, o incidente é uma prova de que a ameaça de ciberataques potencializados por IA deixou de ser teórica. A defesa, contudo, ainda se apoia em fundamentos: a GreyNoise notou que, em ao menos um caso, um Web Application Firewall (WAF) da Cloudflare foi capaz de bloquear a ofensiva, provando que a proteção de perímetro bem configurada segue sendo crucial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register