A Coreia do Norte industrializou um esquema de fraude para infiltrar milhares de seus trabalhadores de TI em empresas dos EUA e do Reino Unido, gerando uma receita estimada em US$ 800 milhões anuais para o regime de Kim Jong-un. Em documentário publicado pelo Wall Street Journal em 12 de agosto de 2026, a investigação revela uma operação multifacetada que utiliza identidades roubadas, facilitadores americanos e tecnologias de IA para contornar processos de contratação. A iniciativa, que explora a ascensão do trabalho remoto, não só financia o programa de armas de destruição em massa de Pyongyang, mas também posiciona agentes dentro de infraestruturas críticas, incluindo agências governamentais, bancos e empreiteiras de defesa. O que começou como uma operação de geração de caixa agora é visto como uma crescente ameaça de espionagem e sabotagem.
A Linha de Montagem da Fraude
A operação norte-coreana funciona como uma linha de montagem otimizada. Equipes são organizadas com papéis distintos: um chefe, especialistas em entrevistas, redatores de currículos e os programadores que executam o trabalho. A escala é massiva; uma única equipe investigada se candidatou a mais de mil empresas em três meses. Para coordenar o volume, os agentes usam servidores privados no Discord e documentos compartilhados no Google. Durante as entrevistas, a fraude é explícita: os agentes usam o ChatGPT em tempo real, copiando perguntas técnicas do entrevistador e lendo as respostas geradas pela IA. Em alguns casos, utilizam avatares de IA ou tecnologia de face swapping para ocultar suas verdadeiras identidades.
A engrenagem central do esquema são os facilitadores americanos. Cidadãos dos EUA, alguns cúmplices e outros enganados, são recrutados para receber os laptops corporativos, configurar contas bancárias e até mesmo participar de reuniões. Um desses facilitadores, Derek Goon, admitiu ter sido pago para operar um laptop de sua casa em Ohio e realizar entrevistas em nome da equipe norte-coreana, dividindo o salário. Segundo ele, a justificativa era simples: "os tempos estão difíceis agora". O FBI já prendeu ou acusou 39 indivíduos, entre agentes de TI e facilitadores, mas admite que a aplicação da lei, por si só, é insuficiente para deter o problema.
De Geração de Caixa à Espionagem
A estratégia é uma evolução direta das atividades ilícitas anteriores do regime. Após o ataque cibernético à Sony, que não teve motivação financeira, Pyongyang pivotou para roubos em larga escala, como o do Banco de Bangladesh. Com o tempo, o foco migrou para o hacking de criptomoedas. A pandemia e a normalização do trabalho remoto abriram a oportunidade final: se ninguém precisa ir ao escritório, a identidade se torna fluida. O esquema evoluiu de invadir empresas de cripto para simplesmente coletar salários de qualquer companhia, com até 90% da renda revertida para o regime. Os próprios trabalhadores de TI são descritos como "mão de obra escrava", selecionados na infância por aptidão em matemática e ciências e forçados a trabalhar sob ameaças a suas famílias.
O risco, segundo autoridades americanas, está em plena mutação. A preocupação principal não é mais apenas a receita, mas o potencial de espionagem, roubo de propriedade intelectual e sabotagem. Com agentes infiltrados em redes de infraestrutura crítica, a qualquer momento, uma ordem de Kim Jong-un poderia ativá-los para "explodir tudo por dentro", conforme afirma uma fonte no documentário. A operação já se expande para outros setores, como engenharia civil. Para as vítimas de roubo de identidade, como Michael Brown — que descobriu ter "trabalhado" em nove empresas e tido um plano de previdência 401(k) aberto em seu nome —, as consequências são a destruição de sua vida financeira e um labirinto burocrático sem saída aparente.
Fonte · Brazil Valley | Business




