O colapso de NEOM, peça central do plano de diversificação econômica da Arábia Saudita, foi o resultado de uma 'dança de ilusão mútua', onde a verdade sobre a viabilidade do projeto não podia ser dita. Em uma análise publicada pelo The Wall Street Journal em 19 de agosto de 2026, baseada em documentos financeiros internos, imagens de satélite e entrevistas com ex-funcionários, o megaprojeto do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS) é dissecado como uma colisão entre uma visão fantástica e a realidade financeira. MBS, que atua simultaneamente como cliente e financiador do projeto, demandava uma 'arquitetura de gravidade zero' e vislumbrava uma cidade linear, The Line, com mais de sete bilhões de pés quadrados de área construída. A ambição colidiu com a realidade, paralisando o que era para ser o maior canteiro de obras do mundo.
A Aritmética da Irrealidade
O projeto sucumbiu sob o peso de sua própria contabilidade. O orçamento inicial, estimado em US$ 500 bilhões, se revelou uma fração do custo real. Uma apresentação interna para o conselho, revisada pelo jornal, projetava a necessidade de capital em US$ 8,8 trilhões até 2080 — mais de 25 vezes o orçamento anual da Arábia Saudita na época. O Fundo de Investimento Público do país (PIF), que controla NEOM, já registrou baixas contábeis massivas em seus projetos de capital, totalizando o equivalente a US$ 17 bilhões em 2024 e US$ 12 bilhões em 2025. O país já teria gasto mais de US$ 50 bilhões no projeto.
Documentos de uma auditoria interna preliminar apontaram para uma 'manipulação consciente das finanças' por parte da equipe. Para justificar custos crescentes e manter a aparência de lucratividade exigida por MBS, as projeções de receita eram sistematicamente infladas. Em um exemplo, para compensar o orçamento de US$ 39 bilhões de Trojena, um resort de esqui no deserto, a diária de um acampamento de luxo foi ajustada de US$ 216 para US$ 704, sem que nenhuma condição de mercado tivesse mudado. Esta prática, segundo ex-funcionários, era comum em todo o projeto, sustentando a ilusão de viabilidade.
Evidência no Terreno
O colapso financeiro tem uma contrapartida física e visível. Imagens de satélite e vídeos obtidos pelo WSJ mostram a paralisação abrupta das obras. Em The Line, uma trincheira de mais de 110 quilômetros foi escavada e estacas de concreto foram fincadas a mais de 90 metros de profundidade antes que o trabalho simplesmente parasse no final do ano passado. Em Trojena, o contorno de um lago artificial e estruturas de aço para uma vila de esqui foram abandonados. Trabalhadores relataram ter sido dispensados com o aviso: 'A construção parou. Estamos de saída.'
Em Sindalah, um resort de luxo para super-iates, o campo de golfe, antes verde, secou e ficou marrom. A construção de um hotel Four Seasons, que já deveria estar em andamento, nunca começou. A evidência em todos os principais subprojetos — The Line, Trojena e Sindalah — é a mesma: enormes quantias de capital e trabalho investidos, seguidos por uma paralisação total. CEOs de empresas contratadas confirmaram publicamente o cancelamento de contratos. A narrativa oficial de Yasir Al-Rumayyan, chefe do PIF, é de 'repriorização', mas os fatos em solo apontam para um encerramento.
O problema estrutural de NEOM foi a concentração de poder. Com MBS atuando como desenvolvedor, financiador e chefe de Estado, o projeto operou em um ambiente isolado da realidade. A visão de um homem não encontrou freios, resultando em um conto sobre os limites do capital quando desassociado da engenharia e da verdade fiscal. O foco agora se volta para Oxagon, um projeto de porto e logística mais convencional, sugerindo um recuo da fantasia para o pragmatismo. NEOM permanece como um monumento inacabado à ambição desmedida.
Fonte · Brazil Valley | Business




