Wall Street parece ter escolhido ignorar, ao menos por um dia, a cartilha do Federal Reserve. Após uma sessão de perdas na esteira do anúncio de mais um aumento de juros, os principais índices americanos operaram em forte alta, com o Nasdaq, de forte composição tecnológica, liderando os ganhos com uma valorização de 1,39% no meio do pregão. O movimento de recuperação ocorreu mesmo após o Fed elevar sua taxa básica em 25 pontos-base e sinalizar uma postura mais rígida contra a inflação.

A dissonância entre a mensagem do banco central e a reação do mercado de ações, especialmente o de tecnologia, é o ponto central. Empresas de crescimento são, em tese, as mais vulneráveis a um cenário de juros altos, que aumenta o custo de capital e corrói o valor presente de seus lucros futuros. A recuperação sugere que os investidores podem estar fazendo uma leitura diferente da do Fed, ou simplesmente aproveitando um alívio de curto prazo.

O paradoxo do aperto

A decisão do Fed foi acompanhada de uma comunicação que não deixa margem para dúvidas sobre sua determinação. Segundo a análise de Dalton Gardiman, economista-chefe da Ágora Investimentos citada pelo Money Times, a sinalização é de um BC americano “mais rígido com a inflação e disposto a subir mais os juros”. As projeções de mercado corroboram essa visão, com a probabilidade de uma nova alta em dezembro superando os 86%, segundo a ferramenta Fed Watch do CME Group.

Nesse contexto, a liderança do setor de tecnologia na alta do S&P 500 é contraintuitiva. Historicamente, ciclos de aperto monetário provocam uma rotação de portfólios, com investidores migrando de ações de crescimento (tech) para ações de valor (setores mais tradicionais e com geração de caixa imediata). A reação desta quinta-feira quebra, momentaneamente, essa correlação, levantando a questão se o mercado acredita que o pico da inflação — e, consequentemente, do aperto monetário — está mais próximo do que o Fed admite.

Aposta de curto prazo?

Uma explicação possível para o rali de alívio está em outros indicadores. A reportagem do Money Times aponta que a queda nos preços do petróleo e um recuo nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) ajudaram a sustentar o apetite por risco. Quando os yields dos títulos de dívida caem, a atratividade relativa das ações aumenta, o que pode ter dado fôlego para uma recuperação técnica após a liquidação da véspera.

Contudo, essa dinâmica parece mais tática do que estratégica. Representa uma aposta de que os ventos contrários de curto prazo (energia mais barata) são mais relevantes do que a maré de longo prazo indicada pelo Fed (juros mais altos por mais tempo). A fala atribuída a um membro do Fed, de que “as condições financeiras ainda não são restritivas”, é um sinal claro de que o banco central não vê seu trabalho como concluído.

O cabo de guerra entre a política monetária e o sentimento do mercado está longe de acabar. A sessão positiva pode ter sido apenas um respiro em meio a uma tendência de ajuste ou o primeiro sinal de que os investidores estão apostando que o Fed será forçado a pivotar sua estratégia antes do previsto. A resposta definirá a trajetória dos ativos de risco nos próximos meses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times