A discussão sobre o futuro dos pagamentos está mudando de eixo. Se por anos o foco foi em transações mais rápidas e com menos atrito, a nova fronteira é a automação da própria decisão de compra. Em um painel na Febraban Tech, em São Paulo, executivos de Zoop e Itaú Unibanco debateram um futuro onde o consumidor não apenas usa o celular para pagar, mas delega a um agente de inteligência artificial a tarefa de pesquisar, escolher e executar a compra.

A tese central é a ascensão do chamado “pagamento agêntico”, um conceito em que um software autônomo age em nome do usuário para realizar transações financeiras. A reportagem do InfoMoney, que cobriu o evento, capturou o cerne da transformação: o pagamento deixa de ser um ato deliberado — um clique, uma aproximação — para se tornar uma consequência invisível de uma instrução dada a uma IA. A questão não é mais apenas como pagar, mas quem paga.

Da recomendação à execução

Hoje, assistentes como ChatGPT e Gemini já são usados como ferramentas de pesquisa e recomendação. O consumidor pergunta, a IA responde. O próximo passo, defendido no debate, é dar a essa mesma IA a capacidade de agir com base na resposta. A transição, no entanto, não é trivial e esbarra em uma barreira fundamental: a confiança. Um estudo global da Accenture, citado por Rodrygo Figueiredo, CPO da Zoop, ilustra o paradoxo: 74% dos consumidores confiariam mais em um agente de IA do que em seu melhor amigo para obter uma recomendação de compra.

Contudo, a confiança para receber um conselho é muito diferente da autonomia para gastar dinheiro. O mesmo estudo aponta que apenas 12% dos consumidores dariam ao agente autonomia total para concluir o pagamento. Esse abismo entre confiar na sugestão e entregar o controle financeiro é o principal desafio a ser vencido. No Brasil, o cenário é particularmente interessante. Com 78% das transações bancárias já ocorrendo via celular, segundo a Febraban, e uma população amplamente adaptada a inovações como o Pix, há um terreno fértil para a digitalização. O smartphone, já consolidado como a principal interface financeira, se torna o palco natural para essa interação com agentes de IA.

A infraestrutura e o dilema da segurança

Para que a IA pague, é preciso uma infraestrutura que permita essa delegação de forma segura. É nesse campo que empresas como a Zoop, adquirida pelo iFood em 2021, se posicionam. Com a meta de transacionar mais de R$ 150 bilhões por ano, a companhia atua como uma camada de “payments-as-a-service” para grandes ecossistemas. A estratégia é fornecer os trilhos para que outros, como o próprio iFood com seu assistente Ailo, possam construir essas experiências. A evolução de tecnologias como o Tap on Phone, que transforma o celular em uma maquininha de pagamentos, sinaliza um movimento maior de desmaterialização do hardware, abrindo espaço para camadas de software e inteligência.

Essa automação, porém, cria um novo e complexo problema de segurança. Durante anos, sistemas antifraude foram treinados para identificar e bloquear robôs. Agora, precisarão fazer o oposto: validar “bots bons” — agentes de IA autorizados pelo usuário — e diferenciá-los de “bots maus”. Como resumiu Otoniel Mendes, head de Antifraude da Koin, o desafio muda de identificar se a ação é humana para verificar se a automação é legítima e opera dentro dos limites definidos pelo dono do dinheiro. Isso exige o que Thais Redondo, diretora de Pagamentos no iFood Pago, chama de uma abordagem que une segurança e experiência, aplicando “fricção inteligente” apenas quando o contexto da transação o justificar.

A corrida pelo pagamento agêntico já começou. O iFood, por exemplo, já permite que seu assistente Ailo guie o usuário até o checkout, e o plano é que a própria IA conclua o pagamento ainda em 2024. A mudança é sutil, mas profunda: a compra se transforma em uma conversa, e o pagamento, em uma nota de rodapé. A questão deixa de ser se os consumidores entregarão parte de seu poder de compra a um algoritmo, mas como as empresas construirão as grades de proteção para que essa delegação seja conveniente, segura e, acima de tudo, confiável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney