Em um trecho de seu novo livro, publicado pelo site literário Lit Hub, o fotógrafo Beowulf Sheehan narra os bastidores de uma das raras sessões de retratos concedidas pelo escritor Cormac McCarthy, falecido em 2023. O encontro, ocorrido em Santa Fé, no Novo México, oferece um vislumbre da personalidade por trás de uma das figuras mais reclusas e mitificadas da literatura americana contemporânea.
O relato de Sheehan desconstrói a imagem de um autor eremita e inacessível. Em vez disso, emerge um homem descrito como "gentil e complacente", que circula com naturalidade pelo Santa Fe Institute, um centro de pesquisa teórica que considerava sua "casa longe de casa". A sessão, que começa no instituto e se estende à residência de McCarthy, revela não apenas o processo de criação de um retrato, mas a dinâmica entre o artista que observa e o ícone que se permite ser visto.
A Física do Mito
A escolha do Santa Fe Institute como ponto de partida é emblemática. Para McCarthy, o local era um refúgio intelectual. "Meus amigos estão aqui. Amamos as mesmas coisas. Discutimos", disse ele a Sheehan, explicando sua atração pela ciência como algo simplesmente "divertido". Essa conexão entre a profundidade filosófica de sua obra e seu interesse pelas leis fundamentais do universo oferece uma chave de leitura para entender o homem que produziu clássicos como "Meridiano de Sangue" e "A Estrada".
Nesse cenário, uma anedota contada pelo próprio autor se destaca. McCarthy narra como sua fiel máquina de escrever Olivetti Lettera 32 foi leiloada por US$ 250 mil para beneficiar o instituto. A história, porém, não termina no grande gesto filantrópico. Com um sorriso orgulhoso, ele conta que um amigo então lhe comprou uma substituta idêntica no eBay por "alguns dólares". O episódio encapsula uma dualidade central: a consciência do próprio valor simbólico no mundo, administrada com um pragmatismo desapegado e um senso de ironia.
O Retrato da Intimidade
O ápice da confiança se manifesta quando McCarthy convida Sheehan para sua casa, uma construção de adobe de dois andares nos arredores de Santa Fé. O cenário é tão revelador quanto as conversas. Veículos antigos e enferrujados sob lonas no terreno — incluindo um Corvette Stingray que ele teria dirigido após uma festa com Johnny Carson — e uma impecável mesa de bilhar no centro da sala de estar são artefatos que materializam as lendas em torno de sua biografia.
Sheehan navega esse espaço com a sensibilidade de quem entende que o retrato vai além do rosto. Ele não força a intimidade, mas a aceita quando oferecida. A sessão evolui de maneira orgânica, movendo-se pelos cômodos da casa, culminando em um convite para o andar de cima, para seu quarto. A interação mostra um McCarthy no controle de sua própria narrativa, decidindo o que revelar e quando, transformando o fotógrafo de um intruso em um convidado.
O relato de Sheehan não oferece uma conclusão definitiva sobre o escritor, mas sim uma série de vinhetas que humanizam o mito. A sessão de fotos se torna um documento não apenas da aparência de McCarthy em um determinado dia de agosto, mas da sua maneira de habitar o mundo: entre a complexidade científica, a poeira do deserto e o conforto de seu lar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





