Os mercados globais amanheceram sob o signo da aversão ao risco nesta terça-feira. Índices futuros em Nova York e as principais bolsas europeias operam em baixa, reagindo ao fim do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. A trégua expirou na segunda-feira, e Teerã já sinalizou a adoção de uma postura militar “totalmente ofensiva”, segundo reportagem da Reuters citada pela InfoMoney.

A reação foi imediata e seguiu o manual da geopolítica: o preço do petróleo subiu pelo terceiro dia, e os investidores venderam títulos do Tesouro americano, especialmente os de longo prazo. O rendimento (yield) do Treasury de 30 anos atingiu o maior patamar desde 2007. A leitura é que o risco de um conflito aberto no Oriente Médio volta a ser a principal fonte de incerteza para os ativos, interrompendo um período de relativa calmaria.

Geopolítica volta a ditar o preço

O movimento dos mercados expõe a mecânica clássica de um choque de oferta de energia. A escalada da tensão no Oriente Médio embute um prêmio de risco no barril de petróleo, o que reverbera em toda a cadeia de preços e reacende o fantasma da inflação. Para os investidores, isso significa um duplo revés: a corrosão do poder de compra e a perspectiva de que os bancos centrais precisem manter os juros altos por mais tempo para conter a alta dos preços.

A liquidação dos títulos do Tesouro americano, que são considerados os ativos mais seguros do mundo, ilustra esse dilema. O aumento dos yields reflete a expectativa de que a inflação futura irá corroer o retorno real desses papéis. Com a alta do petróleo, o mercado passa a exigir um prêmio maior para financiar o governo americano, um movimento que encarece o custo do capital em escala global e pressiona os mercados de ações.

Um novo dilema para o Fed

Este novo cenário geopolítico adiciona uma camada de complexidade para o Federal Reserve. Até a semana passada, dados de uma economia americana em desaceleração alimentavam a esperança de que o ciclo de alta de juros estivesse próximo do fim. A ferramenta CME FedWatch mostrava uma queda na probabilidade de uma nova alta em setembro. Agora, a autoridade monetária se vê diante de um dilema.

De um lado, a atividade econômica dá sinais de fraqueza; de outro, um choque de energia ameaça desancorar as expectativas de inflação. Para o Brasil, o contágio é direto. Um cenário de juros mais altos nos EUA por mais tempo tende a fortalecer o dólar globalmente e a drenar capital de mercados emergentes, colocando pressão sobre a taxa de câmbio, a bolsa de valores e a própria trajetória da Selic.

Os mercados, que vinham operando com base na narrativa de desinflação e pouso suave da economia, agora são forçados a precificar um risco que parecia adormecido. A forma como o Fed e outros bancos centrais navegarão entre o risco de recessão e o de um novo surto inflacionário ditará o rumo dos ativos nas próximas semanas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney