Em entrevista ao podcast Merryn Talks Money, Tom Slater, gestor da Baillie Gifford, argumenta que a inteligência artificial impõe uma transformação biológica e cultural imediata, não apenas econômica. Baseado em seu ensaio recente, Slater defende que a tecnologia não está vindo para os empregos, mas para a mente humana. Ele traça um paralelo com o surgimento da leitura, que espessou as conexões entre os hemisférios cerebrais e reduziu a capacidade de reconhecimento facial para acomodar a nova habilidade. A IA, no entanto, opera em uma velocidade sem precedentes, centralizando os três vetores da evolução cultural: variação, transmissão e seleção de ideias. Segundo o gestor, o controle sobre essa transmissão cultural ajuda a explicar a racionalidade econômica por trás da aquisição do Twitter por Elon Musk. O resultado geral é um choque direto na cognição: a terceirização passiva do pensamento altera fisicamente como o cérebro processa e retém informações.
O colapso da supervisão humana
O uso irrefletido da IA cria um paradoxo onde a performance imediata melhora, mas a capacidade subjacente do indivíduo se degrada. Slater cita um estudo do MIT no qual participantes que usaram IA para redigir ensaios não conseguiram lembrar de uma única citação de seus próprios textos minutos depois. O aprendizado duradouro, que depende do esforço cognitivo, foi inteiramente contornado. Quando o indivíduo confunde a habilidade de operar a ferramenta com o domínio real do assunto, o efeito Dunning-Kruger é amplificado.
Esse fenômeno afeta até mesmo profissionais altamente treinados. O gestor menciona um estudo publicado na revista The Lancet sobre endoscopias. Médicos experientes que utilizaram assistência de IA registraram uma queda de 21% na taxa de detecção quando a ferramenta foi removida. Mais alarmante, quando os pesquisadores ajustaram o sistema para fornecer diagnósticos confiantes, porém incorretos, a performance humana colapsou. A tendência de confiar cegamente no output da máquina superou o treinamento médico, provando que a mera consciência sobre a falibilidade da IA não protege contra a dependência excessiva.
A ilusão da eficiência corporativa
No ambiente corporativo, a pressão para reduzir custos impulsiona a substituição de funções juniores por agentes automatizados. Slater sugere que o mercado pare de focar na IA substituindo empregos inteiros e passe a encará-la como uma substituta de tarefas específicas. Contudo, delegar o trabalho intelectual de base à máquina configura uma falsa economia de longo prazo. Ele utiliza a analogia da aviação: pilotos precisam aprender a voar manualmente antes de dependerem do piloto automático. Se as empresas deixam de treinar a base da pirâmide — advogados, contadores e médicos em início de carreira —, a próxima geração não terá o conhecimento fundacional necessário para auditar os erros da máquina.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a atual pressão do mercado de capitais por expansão de margens e eficiência operacional acelera a adoção indiscriminada de automação, frequentemente priorizando o corte de custos de curto prazo em detrimento da formação de talentos. Dentro desse cenário, Slater observa um agravamento drástico da desigualdade. Ele cita o caso da Meta, que demitiu funcionários em diversas áreas enquanto oferecia remunerações na casa de centenas de milhões de dólares para atrair um grupo seleto de engenheiros capazes de compreender arquiteturas de superinteligência.
O corolário dessa dinâmica é um mercado de trabalho fraturado entre aqueles que terceirizam sua cognição e aqueles que utilizam a inteligência artificial de forma deliberada, como um tutor interativo. O diferencial competitivo no longo prazo não pertencerá aos operadores mais rápidos de sistemas automatizados, mas àqueles que preservarem a capacidade de raciocinar sem eles. A adoção passiva da tecnologia garante um ganho de eficiência passageiro, cobrando como pedágio a atrofia intelectual da força de trabalho.
Fonte · Brazil Valley | Society




