Satya Nadella, CEO da Microsoft, credita ao críquete lições de liderança e trabalho em equipe. Warren Buffett afirma que jogar bridge é “o melhor exercício para o cérebro”. Richard Branson diz que atividades físicas diárias expandem seu dia, tornando-o mais produtivo. A intuição desses líderes, que vai na contramão da cultura de foco absoluto e trabalho incessante, encontra respaldo em uma série de estudos científicos.

Contrariando a sabedoria convencional de que o sucesso exige dedicação total e ausência de distrações, a ciência sugere que a capacidade de se desconectar estrategicamente pode ser um diferencial competitivo. A tese é que hobbies não são fugas, mas ferramentas para construir resiliência e longevidade na carreira — um ativo crucial em qualquer trajetória de alto desempenho.

A ciência da descompressão

Uma pesquisa publicada no Journal of Vocational Behavior oferece a explicação mais robusta. O estudo concluiu que hobbies podem impulsionar a autoeficácia — a crença na própria capacidade de enfrentar desafios, persistir diante de dificuldades e se recuperar de reveses. Em suma, um hobby pode fortalecer a autoconfiança.

Há, contudo, uma condição fundamental: o hobby não pode ser muito parecido com o trabalho. Se a atividade de lazer envolve demandas e habilidades similares às da profissão, o efeito pode ser o oposto, minando a autoeficácia. A chave é que a atividade sirva como um verdadeiro respiro mental e emocional, não como uma extensão do escritório com outra roupagem.

Similaridade vs. Seriedade: a dose certa

A análise se aprofunda em duas variáveis: a similaridade com o trabalho e o nível de “seriedade” do hobby. A seriedade aqui se refere não apenas à dificuldade, mas ao quão central a atividade se torna para a identidade e o senso de realização de uma pessoa. Treinar para correr 5km é um hobby; treinar para completar uma maratona em menos de três horas é um hobby sério, com alta pressão por performance.

O ideal, segundo os pesquisadores, é um hobby com baixa similaridade e baixa seriedade. Um programador que constrói aplicativos por lazer, por exemplo, não está obtendo a pausa mental necessária. O mesmo vale para um advogado que decide se tornar um grande mestre de xadrez. Quanto mais similar a atividade for do trabalho, menores devem ser as apostas no resultado. Quanto maiores as apostas, menos similar a atividade deve ser da profissão.

O objetivo não é adicionar outra fonte de pressão à vida, mas criar um espaço de recuperação que sustente a produtividade a longo prazo. A lição para líderes e profissionais não é apenas sobre ter um hobby, mas sobre a inteligência em escolher uma atividade que realmente reabasteça a energia, em vez de drená-la ainda mais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company